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  • Equipe Malamanhadas

Shirkers e os roubos físicos e simbólicos das produções de mulheres



Shirkers, o clássico cult singapuriano que nunca se viu. A estrada começa no ano de 1992 na pequena ilha asiática da Singapura em que a jovem Sandi Tan, junto com suas amigas, Jasmine Ng e Sophia Siddique, resolvem dar vazão ao borbulhar efervescente da criatividade jovem, flexionando seus músculos do mundo selvagem dos zines punks para o mundo da produção de filmes independentes. Tan narra seu caminho absurdo, sonhador e alimentado pela raiva, tédio e frustração da família e país conservadores.

Cabe aí situar que o ninho que abriga e limita as heroínas da história real é um pequeno arquipélago localizado na ponta sul da Península Malaia, no Sudeste Asiático. Constituído por 63 ilhas, Singapura, hoje, é o país que apresenta o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos países asiáticos e possui território altamente urbanizado. Mas nem sempre foi assim: Singapura foi parte de diversos impérios locais desde que foi habitado no século II d.C. Já o país moderno foi fundado como um posto comercial da Companhia Britânica das Índias Orientais e o Império Britânico obteve soberania completa das ilhas por um tempo, passando depois a serem ocupadas pelo Império do Japão durante a Segunda Guerra Mundial e voltando ao domínio britânico logo após. Torna-se autogovernada internamente somente em 59. Desde então a imagem popular dos governos de Singapura são de governos fortes, restritivos e autoritários.

Tan, Ng e Siddique são aí em 1992, jovens, limitadas no mundo em que vivem, ansiosas por se expressar e se ver expressar no mundo: esse fervilhar e necessidades de produzir livremente as levam ao encontro da enigmática figura mais velha do professor de cinema Georges Cardona, com quem desenvolvem relação e vínculos de amizade ligeiramente incomuns. Quando Tan escreve o roteiro de um road movie surrealista de nome Shirkers (inspirada em uma viagem de carro feita com Cardona pelos Estados Unidos), este integra a equipe no papel de diretor das filmagens – no que chorou ao ler o roteiro pela primeira vez.

Assim, dá-se início a aventura de Tan como roteirista e protagonista de Shirkers, Ng como uma espécie de produtora executiva e Sophia como uma faz-de-tudo-um-pouco pelas estradas verdejantes de Singapura, com sua trupe de amigos, colegas colaboradores e equipe de atores amadores. O filme de fato, depois de pronto, nunca se houvera visto e ouvido. Alguns meses após as filmagens, Cardona, que havia se colocado para fazer a edição, simplesmente sumiu. E somem filmagens, Georges Cardona com a família, a suposta edição, e junto mas não menos importante, o fruto de meses de trabalho e anseios de produção das jovens Tan, Ng e Sophie.

O roubo de Shirkers aí não é uma violação física. É violação de propriedade intelectual, emocional, que desaterra as aspirações profissionais e subjetivas de três jovens. Tan, a idealizadora do projeto se vê desolada, deixa de lado seus sonhos de roteirista e viaja agora para idade adulta, onde o roubo se mostra como ferida que de algum modo não para de sangrar, diferentes formas, por mais de 20 anos. Quando a adulta Tan nos relata os inúmeros roteiros e livros jamais terminados, o que se sente é de novo a lacuna de Shirkers, o revolucionário filme jamais visto, que se renova e se reapresenta num semi-trauma nunca resolvido.

O movimento de retorno à filmagem do documentário acidentalmente investigativo de Sandi Tan que desliza pelos caminhos dos EUA e Singapura após tantos anos, é mais do que nunca uma tentativa de resgate. De dar um fim ao ciclo de dúvidas e inquietações que se fizeram presentes, mas silenciosas durante todos esses anos. Magicamente, ao passo que retorna ao filme, retorna a si e sua própria historia, de certa forma reavivando suas perspectivas ingênuas(?), impassíveis, confiantes e especialmente sonhadoras da Sandi Tan do passado, do mesmo modo que suas amigas Ng e Sophie.

Durante o decorrer do filme, só no que consigo pensar é em toda a criatividade, irreverência e genialidade de mulheres jovens (ou não) que ‘se perderam’ no curso da história. Roubadas, retidas e sufocadas pelas circunstâncias. Pelos egos dos homens.

O novo Shirkers, o novo road-movie introspectivo e corajoso na forma de percurso de documentário (disponível na Netflix) nos devolve o tempo ás idiossincrasias das personagens e em especial da figura do ladrão de sonhos, na figura de Georges Cardona, sob a qual percebe-se que não se sabia quase nada. Georges Cardona, o excêntrico estrangeiro professor de cinema, o provocador, o incentivador e o traidor. Me pego percebendo também na figura do mais experiente homem branco supostamente francês Georges, a figura do homem europeu que se apossou das terras verdejantes de Singapura, e que se reinventa também no roubo de suas criatividades e subjetivações.

O filme é repleto com as recém, agora recuperadas, imagens das belas filmagens em 16 mm originais de Shirkers em 1992: permeiam o filme coloridas imagens da jovem Sandi Tan, de óculos, atuando de cara fechada, enquanto perambula por uma Singapura sonhadora e de cores vibrantes, sempre com a mesma blusa de estilo marinheiro cor-de-rosa e câmera pendurada ao pescoço, acompanhada um conjunto de personagens de apoio incondicionais ou não, enquanto tem a mão em formato de arma de dedo.

E dentro das habilidades humanas de sonhar, de formular, de produzir e questionar, apesar de tão sujeitas às condições autoritárias do tempo e das construções e opressões sociais que nos acometem, sinto que estará sempre imbutida uma possibilidade de respirar fundo frente ao mundo. Frente a nós mesmas e frente a essas mesmas circunstâncias violentas e cerceadoras. A possibilidade de ver a nós mesmas respirando em nossas obras. Em nossas histórias. E de tantas outras que por maldade dos tempos e das manutenções do poder, ainda não ouvimos falar ou não fomos ainda escutar.


texto escrito por Deborah Falconete.

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