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  • Equipe Malamanhadas

Só mais uma reflexão (in)oportuna sobre Brumadinho


    Escrever para o Porta Treco é um tanto quanto difícil, porque exige-se uma certa sincronia com o mundo e não necessariamente com as pautas feministas. Na última semana aconteceram duas situações em particular que repercutiram muito dentro e fora desse ambiente da internet. O primeiro caso foi o lance do criminoso artigo intitulado “O pudor da mulher atrai o respeito do homem” publicado dia 25/01/19, no jornal teresinense, Diário do Povo, cujo dono é ex-candidato ao governo piauiense pelo PSL (Partido Social Liberal, aquele partido lá que dominou as eleições). O outro caso, que também se classifica como um crime, foi o de Brumadinho, em Minas Gerais.

    Há sete dias aconteceu o rompimento da barragem de Brumadinho (65km de Belo Horizonte). A barragem de rejeitos de mineração é controlada pela empresa Vale. Muitos já apontam que os danos causados pelo rompimento fazem dele um dos maiores desastres ambientais no mundo e o maior aqui no Brasil. O último boletim sobre a tragédia, minutos antes da publicação deste texto, registrou 99 corpos resgatados, sendo que 57 deles foram identificados, 259 continuam desaparecidos. O número de pessoas desalojadas subiu de 135 a 175. Após o rompimento da barragem, 192 pessoas foram resgatadas com vida. Todos esses números foram divulgados pelo Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e pelo governo de Minas Gerais.

O que aconteceu no município mineiro Brumadinho é, no mínimo, uma responsabilidade geral.

    Voltando para os acontecimentos que relatei no começo do texto, eu teria muito mais facilidade em despejar opiniões sobre o primeiro caso do que que em Brumadinho e isso basicamente me fez refletir sobre nós, enquanto população. O que aconteceu no município mineiro é no mínimo uma responsabilidade geral. Muito já se foi dito sobre o lance de eleger pessoas para os cargos de governo sem analisar suas pautas e atenções para as questões ambientais. E isso é verdade, concordo plenamente. Mas não é só isso, apesar de que o voto é um ato importante para concretizar nossas causas. Acredito que em geral somos sempre alheios as causas ambientais em todas as esferas e isso é ainda mais perceptível no nosso dia-a-dia, quando o que importa é tudo menos agir de forma mais concreta para a preservação do meio ambiente.

    O sentimento é de revolta é gritante. Depois que tudo isso acontece, o que sobra é somente o vazio. A incapacidade e inutilidade no momento. Mas depois que passa? Recordo muito do caso de Mariana em 2015. Lembro-me que estava viajando na época e conheci uma mineira de Belo Horizonte que estava arrasada. Fiquei imaginando o quanto aquilo mexeu com ela. Na época, ela era eleitora do Aécio Neves. Não sei como está seu posicionamento político agora. Mas é difícil também porque para a população, a oposição era eleger Fernando Pimentel, que inclusive não deu nenhuma declaração sobre Brumadinho. E agora o que esperar de Romeu Zema e seus aliados MDB E PSDB, incluindo o próprio Aécio Neves que segue firme e forte na política e principalmente com o poder em MG?

    É muito fácil nós nos comovermos no conforto de nossa casa sobre o Caso de Brumadinho. Claro, que é natural a reação de tristeza e solidariedade, mas é muito hipócrita também. Mais hipócrita ainda são os palpites a todo o momento sobre o caso e nenhuma solução efetiva. Este texto pode ser também bem hipócrita, sendo que a autora que vos escreve não sabe nada sobre as políticas voltadas para a fiscalização de barragens. É complicado organizar ideias e tentar sustentá-las sem ao menos uma vez se questionar se está fazendo certo, se está se posicionando corretamente e de maneira justa. Acredito que as pessoas não precisam necessariamente estarem ligadas a todo momento em cobranças e fiscalizações a Vale, mas é responsabilidade nossa também. É estar mais envolvido com o mundo e com as causas que lutam por melhorias no mundo.

É muito fácil nós nos comovermos no conforto de nossa casa. Claro, que é natural a reação de tristeza e solidariedade, mas é muito hipócrita também.

    Não nos movemos minimamente pelas causas ambientais ou pelo trabalhador e agora queremos opinar a torto e a direito sobre o que está certo ou não nessa história de Brumadinho. Eu sei que é muito utópico está falando aqui de buscarmos nos mover para as causas ambientais a partir de agora. Eu sei. A mudança é gradativa, claro. Mas o que eu queria aqui é mostrar que tudo isso é uma grande hipocrisia. Essa comoção, essa tal reação de humanidade, esse choro ao ver notícias e os boletins diários sobre Brumadinho... Tudo. Esse texto vale mesmo só para concentrar um pouquinho de consciência e uma tentativa de não deixa passar em branco a culpa que todos, absolutamente todos, têm no desastre de Brumadinho.


Obs: muito mau-caratismo das pessoas que criticaram a Luisa Mell.


Texto escrito por Ananda Omati.

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