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  • Equipe Malamanhadas

Joana agradece Luís, mas prefere comprar o tecido de Flávia


Eu estava pensando aqui... o feminismo é essencialmente a luta pela emancipação das mulheres. Outra coisa, as relações de poder são basicamente ligadas ao econômico. Hm... Nesse sentido de libertação da mulher, uma das ações que vejo algumas amigas feministas tomando para si é o ato de consumir produtos e serviço de mulheres. Não falo de divulgação nas redes sociais sobre o trabalho das colegas – o que é muito importante também –, mas no seu pessoal, como quando você vai à feira e compra as verduras da senhora que está lá com a sua barraquinha entre alguns homens. É isso. Simples e óbvio. Mesmo assim, quero trazer esse debate interno hoje para falarmos sobre a importância de escolher e priorizar mulheres.

Retomando ao conceito do movimento, sabemos que antes de tudo, ser feminista é reconhecer que nós, mulheres, estamos inseridas em um contexto social de submissão diante dos homens. É claro que há mulheres que não se reconhecem feministas, mas têm dentro de si as pautas e as ações que muitas vezes valem mais do que quem está militando. Com isso, aliando essas mulheres que verbalizam o feminismo e as que têm o movimento dentro de si de forma tímida, e buscando a valorização das mulheres de forma econômica, vejo que as soluções que podem contribuir de forma micro e macro estão associadas também com a filosofia de consumir o trabalho de mulheres.

Uma das ações que vejo amigas feministas tomando para si é o ato de consumir produtos e serviço de mulheres.

Joana, uma personagem fictícia e muito baseada em fatos reais, tem 29 anos de idade. Ela é feminista, professora de Português na rede privada, mãe de uma menina de sete anos, e nos momentos livres, gosta de andar de bicicleta pela cidade. Certo dia, acordou com muitas coisas para fazer e resolver. Primeiro de tudo, foi até a horta comunitária próxima à sua casa em sua bike para comprar verduras fresquinhas. Lá ela encontrou Dona Lúcia, uma senhorinha batalhadora que vende verdura para sustentar a família. Alface, cebola, cheiro-verde e tomate foram as compras feitas com Dona Lúcia. Ao seu lado tinha Carmen, uma moça também de 29 anos, que cultivava beterraba. Joana não pensou duas vezes e comprou os produtos daquela mulher.

Ao chegar em casa, Joana começou a organizar suas compras e a preparar um almoço rápido porque à tarde teria que dar aula. Ela estava muito a fim de escutar um som para se distrair enquanto cozinhava. Lembrou-se de um cantor que é muito foda, mas que veio recentemente à tona casos de abusos sexuais. Joana sabia que era difícil, mas precisava parar de escutar aquele sujeito. No entanto, rapidamente lembrou-se do disco de uma sambista antiga que nunca escutara e estava salvo em sua playlist de coisas que ela precisava ouvir ainda nessa vida. Foi depois de dar o play e de mergulhar no som daquela mulher, que Joana iniciou sua rotina na cozinha.

Ah, lembrei! Joana, é bem estilosa. Tem várias tatuagens e, como toda tatuada, sempre está sonhando com o próximo desenho no corpo. Ela antes já tinha sido riscada por tatuadores e não tinha muita preferência sobre o gênero de quem ia lhe tatuar, afinal, buscava aquele que fosse mais experiente no tipo de tatuagem escolhida. Mas um dia percebeu que a tatuadora Maria era muito boa em frases, letras, mas só João tinha a fama na cidade. Joana queria tatuar seu poema preferido. Pensando bem, era melhor que ele fosse feito por Maria. No mesmo dia, decidiu colocar um piercing e foi Teresa quem furou seu nariz e colocou o metal ali, embora tivesse Pedro, que era considerado o melhor naquela função.

Não existe uma ideia fixa de ações que contribuam para a libertação das mulheres. O feminismo é claro em seus objetivos, mas muitas vezes torna-se confuso. 

Naquela semana, Joana precisa levar sua filha ao médico. Não pensou duas vezes em buscar uma mulher para consultar a sua filha na pediatria. Isso seguiu de forma responsável por outras especialidades que necessitava levar sua cria ao longo dos anos. De certo modo, ela sempre priorizava o atendimento e a consulta, seja particular ou pelo plano, de mulheres. Algumas pessoas torciam o nariz e repreendiam Joana, dizendo que médico tal é o melhor na sua área e que Joana tinha que parar de levar tão à sério esse lance de feminismo. Mas Joana tinha consciência de suas ações, sabia da importância de comprar livros daquela escritora local que estava surgindo, de pagar pelo show de uma cantora nova, de ir a eventos locais que basicamente mulheres se apresentavam, de passar numa feirinha e comprar artesanatos feito por elas. Pelas mulheres.

Não existe uma ideia fixa de ações que poderiam contribuir para a libertação das mulheres. O feminismo é claro em seus objetivos, mas muitas vezes torna-se confuso em suas regras metodológicas de como solucionar o problema.  A mulher é excluída de diversas formas da sociedade, e isso, de fato, faz com que os conjuntos de ações seja inúmeros. De modo progressivo, toda ação é válida: contratar mulheres, pagar por seus trabalhos, divulgar, tornar a contratar, indicar para os amigos. Mas, não necessariamente fazemos isso somente porque são mulheres, mas sim por serem bem competentes no que fazem. É uma receita simples, no entanto, faz toda a diferença na sua vida e na vida dessas mulheres. É claro, também, que isso não vai mudar a vida de forma imediata, mas são ações que contribuem na busca pela libertação da mulher.

Mas, ei! Não precisa apontar a coleguinha que diz uma coisa e prega outra, não. Cada um tem dentro de si sua consciência, então, faça o seu e proteja-se.


Texto escrito por Ananda Omati.

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