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  • Malamanhadas Podcast

Eu vou ficar. Mas o que vai sobrar de mim?

Hoje, passeando pela tela do Instagram, vi o desenho de uma mulher com a frase “tomando todo cuidado para não me atropelar mais uma vez”. Lendo isso, relembro a mim mesma o quanto é importante tomar cuidado e, principalmente, tomar autocuidado para não me atropelar, me vulnerabilizar, sofrer e praticar violências que não precisam fazer parte da minha trajetória.

Não é egoísmo quando precisamos nos fechar e impor limites para cuidar de nós mesmas. Esse cuidado, com a força do autoamor e da autoestima, pode não só melhorar nossa relação com a gente mesma, mas também com os outros. O autocuidado é também coletivo.

Em muitas relações, nos sobrecarregamos com o cuidado com o outro, desviando da centralidade da nossa própria vida, dos nossos próprios sonhos e objetivos enquanto pessoa complexa, capaz, que pensa individualmente sobre si e sobre o mundo. O outro é tão grande, mas tão grande, que me esmaga. Me sequestra. Eu deixo de pensar em mim e penso só nele ou só na relação que tenho com ele. Esqueço o que eu quero, o que eu gosto de fazer ou não fazer. Esqueço até de sonhar. Preciso cuidar dele.

De outro lado, podemos nos colocar a tarefa de cuidar do outro como escolha, como distração de nossas pendências com nós mesmas, ainda que isso implique em extrapolar limites de respeito à individualidade e aos sonhos dessa outra pessoa. O outro que eu amo e eu cuido é outra pessoa, não uma relação-extensão de mim e das minhas expectativas. Afinal, é cuidado ou controle?

Compreender a complexidade e a centralidade da relação consigo evita desviar o foco, exagerar no cuidado com o outro. Esse outro não é o centro da minha vida, não é responsável pela minha felicidade, não é passível de controle e expectativas enormes porque está lidando com suas próprias questões pessoais, familiares, políticas... assim como eu também.

Posso cuidar do outro, se eu quiser. Mas não posso cobrar as respostas que estou projetando, não posso controlá-lo para corresponder a demandas tão minhas, que, lá no fundo, eu sei que só podem ser supridas por mim mesma. Não posso responsabilizar o outro por algo tão importante: o cuidado comigo mesma.

Posso cuidar, desde que eu cuide primeiro de mim. Desde que eu seja o centro da minha vida. No fim do dia, o outro pode ir embora, se ele quiser. Mas eu vou ficar. O que vai restar de mim estará preparada para lidar só comigo? O que vai restar de mim vai me responsabilizar pela minha felicidade, a felicidade que eu sonho e mereço?



Texto escrito por Letícia Lima.

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