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  • Equipe Malamanhadas

Desnude e o prazer feminino

Atualizado: 30 de Nov de 2018

Em março deste ano de 2018, estreou a série Desnude no GNT. A parceria da plataforma Hysteria com a Conspiração Filmes e Globosat trouxe uma abordagem que mostra fantasias sexuais do ponto de vista da mulher, em que o prazer feminino está em primeiro lugar. Eu não diria uma proposta nova, porque ao assistir os nove episódios e mais um documentário que complementa o projeto, vi um pouquinho de série nesse feminismo liberal, fora a sensação de assistir a uma série no horário nobre da Globo vendida como ultrarrevolucionária.

Mas não quero parecer injusta ao começar o texto ironizando Desnude, até porque, na época em que assisti, que foi exatamente no mês de lançamento, eu tive uma reação menos crítica e mais celebrativa já que foi um conteúdo feito por uma equipe quase que 100% formada por mulheres, da direção à contrarregra. A série de fato pode ser considera como pioneira nesse sentido aqui no Brasil.

Desnude é assinada pelas diretoras Carolina Jabor e Anne Guimarães. Cada episódio tem 20 minutos de duração e o documentário mostra os bastidores da série ao mesmo tempo que levanta a discussão sobre a sexualidade da mulher. As discussões do documentário passam pela crítica a indústria pornográfica, juntamente ao tabu de uma mulher falando de sexo, a inexistência do orgasmo feminino para a sociedade, a realidade de produções audiovisuais que são compostas em sua maioria por homens, além do machismo que transpassa em todas as circunstâncias abordadas pelo grupo de mulheres que trabalharam no projeto.

O que sempre vemos é a perspectiva e a leitura do sexo masculino sob o feminino e Desnude afronta essa pauta constante, desconstruindo o tema.

Mas voltando a falar da série, cada episódio apresenta histórias e desejos diferentes, mas todos são bem conectados à espiral da série que é o desejo da mulher e não o do homem. O que sempre vemos é a perspectiva e a leitura do sexo masculino sob o feminino e Desnude afronta essa pauta constante, desconstruindo o tema. Nota-se também as belas atuações das protagonistas de cada episódio. Apesar de serem atrizes e de estarem ali para cumprir com o objetivo do projeto, elas estão também ligadas à proposta, já que são mulheres nascidas e criadas na sociedade patriarcal e homofóbica.

Apesar de toda a bravura da série e de minha empolgação a princípio antes de assistir, anotei vários pontos que deixaram a desejar. Não quero de nenhum modo desmerecer o trabalho dessas mulheres, pelo contrário. Porque o trabalho feito pela equipe é de reconstrução e ressignificação. O conteúdo não é inédito, no entanto, sendo uma produção brasileira, acredito que seja algo inovador e único. Desnude poderia ter se arriscado mais. Imagino que todas as mulheres do projeto, pelo menos as que estavam na parte de criação, são feministas. Porém, pouca representatividade foi mostrada.

É sempre bom ver mulheres empoderadas, mas ao mesmo tempo é cansativo. Se o passo adiante foi dado, por que não seguir mais com o avanço? Por que não mostrar um pouco mais dos desejos de uma mulher mais comum ou pelo menos colocar a personagem em uma situação de desconstrução. É claro que a pauta da série são os desejos sexuais, mas eles não estão sempre ligados à um ambiente de glamour e a uma estética das classes dominantes. As mulheres que não se declaram feministas (que não têm consciência do “ser mulher”) também sentem desejos ou se não sentem, não sabem, porque lhes foi ensinado que é errado.

É nesse momento que vejo o nome Globosat surgir na tela do notebook e me entristeço. “Coisas da Globo sempre vão ter um tom meio Globo, meio elitizado, meio Rio-São Paulo, meio carioquês, burguês…”, disse uma pensadora contemporânea de mesa de bar. Ainda nesse ponto de representação, as protagonistas são em sua maioria brancas, magras, de classe média alta e heterossexuais. Gerou muito incomodo na pessoa que vos escreve. É sempre bom ver o colorido, a variedade. Há enriquecimento não só para quem assiste, como também para quem está produzindo. Pareceu um tanto preguiçoso esse quesito. Tudo bem as histórias serem aquelas, mas o que custava inserir uma mulher gorda como protagonista em um dos episódios, por exemplo?

No momento em que a quarta história nos é apresentada, com a mãe ficando com o amigo do filho… Ai não… Eu não pensei em desistir, porque eu não desisto, vou até o fim, tem que ser algo muito ruim para que eu interrompa uma série, o que não foi o caso com Desnude. Mas nesse episódio eu remexi no celular. Pausei a série e fui assistir em outro momento, com uma internet horrível, que não me permitia uma resolução aceitável.

Ainda apresentando os pontos negativos, na minha opinião, nos deparamos com belas imagens, mas de lugares e ambientes luxuosos. É a casa de praia, a festa na mansão, o quarto de rico, outra festa na mansão, a floresta no meio do nada… Sério? Não dava para ser menos óbvio? Não é possível que os desejos femininos se concentrem somente nesses imaginários. Ou talvez seja mesmo, visto que a série foi inspirada em relatos por mulheres à pesquisa das criadoras da série. E isso já é outro ponto a ser discutido, porque na pesquisa feita na internet (um lugar que, de certa forma, já faz um recorte de público) mulheres afirmaram que assistem à pornografia, mas que não se sentem representadas. Essa pesquisa foi feita justamente porque a GNT queria uma produção erótica para o público feminino.

Além disso, alguns pontos na história ficam soltos. Muitos são sutis, mas outros ficam totalmente desconexos ao meu ver, sabendo que esta não é a proposta. Em vários episódios, há uma certa inquietação com situações que foram deixadas ali e pronto, não tiveram uma explicação ou lógica dentro do contexto da série. Estamos falando de cinema. Dependendo do estilo do audiovisual, há situações que são conduzidas para o nada, ou seja, precisam de resoluções.

Mordendo e assoprando, pois não quero interferir na subjetividade de ninguém e muito menos ficar só apontando falhas no roteiro, gostei das sutilezas da série. Logo no episódio de estreia, um casal cis heterossexual se provocando e criando fantasias sexuais. A mulher da relação simplesmente desconstruindo a fantasia óbvia e tradicional masculina e recriando uma mais real, já que as pessoas que estavam envolvidas eram mulheres. Ou seja, ela mostrou ao parceiro que no sexo as mulheres não têm a obrigação de servir o homem a todo o momento.

Outra sacada interessante, que demarca justamente essa visão feminina do prazer é no último episódio, quando a protagonista, imaginando cenas eróticas, corrigia seus pensamentos, permitindo-se ser a protagonista da sua própria fantasia sexual. Visto que em um primeiro momento, ela estava mais retraída dentro de suas próprias fantasias, ainda sobre o domínio do que o homem considera como sexual e prazeroso. Mesmo imersa em seus pensamentos, ela ainda se via presa a um imaginário que ela não sentia prazer e se corrigia para garantir que a fantasia fosse atrativa para ela.

Gostei bastante das atuações. À principio torci o nariz quando vi alguns rostos conhecidos e antigos que sempre são vistos na tv aberta, mas depois entendi o porquê de estarem ali. São primorosas, excelentes atrizes e que foram bem encaixadas nos papeis. Vou começar a citar nomes. Uma das histórias mais excitantes foi a com Clarice Falcão. Pelo ambiente de trabalho, pelo quarto onde a personagem mandava as nudes, pelas nudes, pelo crush da moça. Fiquei na famosa bad desejando estar naquela situação, afinal, quem nunca? Mas voltando pela atuação, é muito bom ver o jeitinho carioca nerd de Clarice que há muito tempo estava voltada apenas para o humor.

Vamos aplaudir também as expressões transitórias e envolventes de Maria Luísa Mendonça naquele ambiente a la 120 dias de Sodoma. Enaltecer a Eva de Laura Neiva e sua sexualidade aflorada, saindo-se de uma menina com baixa autoestima para uma mulher confiante em si. Bella Camero faz uma menina que ao completar 19 anos começa a realizar jogos sexuais online. Neste episódio é apresentado um tom mais dramático do que sexual, já que a protagonista se ver em situações bastante problemáticas e vai tentando recuperar-se dos traumas vividos. Luciana Paes também é destaque, ao meu ver, representando a zeladora de um motel que aproveita o espaço para ficar criando suas fantasias sexuais.

O único episódio que não desfrutei muito foi o Tirando Onda, com Cláudia Ohana. Não pela atriz, é claro. Mas fantasia recriada no episódio é muito próxima ao convencional, ao que já é criado por homens: a mãe gostosa do meu amigo. Fora as semelhanças com o filme Adore de Anne Fontaine que já é uma adaptação dos contos As Avós de Doris Lessing. É claro que em ambos os casos, a perspectiva fica por conta do desejo feminino e não do masculino, mas a casa de praia, os meninos igualmente seguindo um modelo padrão de beleza, tudo remete a uma fantasia já bastante explorada no audiovisual.

Repito, na época em que assisti, tinha gostado bastante, inclusive alguns episódios de fato causavam certo frisson, mas hoje percebo que as mulheres por trás desse projeto deixaram uma oportunidade de explorar, diversificar e desconstruir mais o prazer feminino através do audiovisual. Não sei se vai ter uma segunda temporada (espero que sim!), não li sobre, mas torço muito para que a discussão prossiga e com mais representatividade.

A pauta da sexualidade feminina é importantíssima. Estamos em 2018 e ainda há mulheres que fingem prazer, que não são chupadas, que nunca tiveram um orgasmo, que rezam para que a penetração acabe logo e, assim, possa dormir. As mulheres desde sempre têm o seu prazer podado. Não conhecem o próprio corpo, não se masturbam e são ensinadas a somente darem prazer ao homem. A indústria pornografia é na verdade uma grande contribuinte dessa situação, já que aprisiona o corpo da mulher, dominando sua sexualidade, propagando e ensinando o desejo masculino reprimindo o feminino. Mas que prazer construído é esse? Colocar a mulher em uma situação degradante, por exemplo, não é algo natural, entendam. Por que o contrário não é mostrado? Em uma cena pornô heterossexual, por que sempre a mulher é o objeto a ser filmado? Por que nos filmes pornôs o homem dirige (agressivamente) o sexo? Nada é à toa. Façam as mulheres gozar. E mulheres, gozem.



texto escrito por Ananda Omati.

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