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  • Equipe Malamanhadas

Carta de uma mulher cansada


Para ouvir: Flor da Pele – Zeca Baleiro


Querida amiga desconhecida,


    posso te chamar assim, de Amiga? Espero que isso não te incomode. Eu, particularmente, gosto dessa aproximação. Eu queria tá escrevendo aqui textos extensos sobre um dos milhares de temas que tenho anotados. Quase todo dia eu lembro de um assunto que renderia uma boa discussão nesta coluna. E também, toda semana, ao fazer uma pré-organização do que vai ser meus dias, eu anoto lá no topo da agenda: “escrever o texto do Porta-Treco – ver temas no caderninho”. A frase fica lá piscando pra mim durante os próximos setes dias e é renovada na segunda-feira seguinte. Mas raras são as vezes que a ideia sai do papel... O fato é que eu ando muito cansada. E isso afeta diretamente a minha produção. Ando fazendo tudo muito no automático: as obrigações do trabalho, as tarefinhas de casa, os afetos diários, os projetos queridos. Até os sonhos a serem realizados estão vindo secos. Tudo anda muito sem emoção e eu ando muito cansada. E me irritando mais rápido do que o normal.

    Em uma rápida olhada ao redor, os meus amigos também estão esgotados. Tá todo mundo muito mal, meio fraco, abalado. Não tenho ideia de quando você vai ler essa carta, mas daqui de onde eu escrevo, tá acontecendo uma votação no Supremo Tribunal Federal no Brasil para que seja decidido sobre a criminalização da homofobia. Os tempos estão difíceis. Está tudo muito às avessas. E eu ando perdendo um pouco às forças, implodindo por dentro. Pouco a pouco. Quase sempre por um fio.

     Eu poderia dizer que esta carta veio apenas para ocupar espaço: mais uma coisa feita no automático para cumprir a obrigação do compromisso com o leitor do Porta-Treco, nossa coluna semanal que sai todas as quintas. Já estamos no terceiro parágrafo, olha aê, estou quase batendo uma meta! Mas não, não é bem assim. O fato é que eu p-r-e-c-i-s-a-v-a desabafar.

     Lembrei aqui também de um dos motivos que eu deixei um pouco de lado a escrita (fora da produção jornalística): eu me doo demais também para as palavras. Tudo meu leva tudo de mim. E se expor também dói. A ferida fica aberta para qualquer um tocar e fazer dela o que bem (ou mal) quiser. Mas isso é assunto para outras cartas, voltemos então para o cansaço.

     Essa coluna exige tempo e disposição. Ela não existe à toa. Pensamos nela como uma janela para nos aproximarmos. Nós, vocês e o mundo. Um complemento do podcast – que é o produto principal. E queremos sempre entregar o melhor. Não o perfeito. Mas a melhor versão aqui e agora. O que faz sentido. E, para mim, aqui e agora, o que faz sentido é o cansaço. E isso está sugando todas as minhas energias. Você também não sente isso? O crime de Brumadinho, a morte do jornalista Boechat, as declarações ignorantes e ameaçadoras de todos os representantes desse governo nojento, as grosserias que lemos nas redes sociais....

     Voltando os olhares para o meu micro: a falta de oportunidade profissional para pessoas ao meu redor, o racismo e a discriminação de gênero ali próximos, latentes no cotidiano, a desesperança de outrem, a exploração desenfreada, as injustiças sociais, a incapacidade de poder resolver todos os problemas que invadem o coração dos mais queridos, meus próprios conflitos internos, a insegurança. Tudo dói. Sufoca. Cansa. Eu estou quase sem ar!

     Mas aqui não é um pedido desesperado de socorro. Aqui é um desabafo. Onde quer que você esteja – e aqui não falo da sua localização no GPS. Onde quer que você esteja no seu lugar no mundo, na sua fase da vida, no seu ritmo, em qualquer nível de descoberta, desconstrução, dor, felicidade, classe social. Onde quer que você esteja, você precisa saber um pouco sobre tudo isso que eu falo aqui. Desse sentimento. Desse coração oco de emoções que as causas são esse amontoado de acontecimentos externos, internos e que são absorvidos na mesma proporção que eles chegam.

    Minha amiga, eu não quero aqui te exigir forças. Também não quero ser a dona da verdade para dizer para você sair do seu cansaço (se caso ele exista aí). Muito menos fazer com que você socorra (me socorra) nesse período de cansaço. Eu quero, aqui, agora, apenas derramar esse cansaço que sai por todos os meus poros e inunda todos os meus momentos e espaços. Transbordar, o que quer que esteja dentro de nós, é o que nos resta.

    Depois a gente encontra alguma alternativa.


    Obrigada por me ler. Seus olhos em minhas palavras são um afago.

    Fica bem, minha amiga. Você é uma mulher incrível. Se quiser, escreva de volta.


Texto escrito por Aldenora Cavalcante.

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