Buscar
  • Equipe Malamanhadas

A importância do sonhar como prática



    Vou perguntar, mas não quero que me responda nada. Antes, queria dizer que o Sonho, enquanto símbolo, deslumbra. Desconcerta. Move. Estremece. Atordoa e assusta também. Mas quando sonhamos de maneira coletiva parece que fica impossível não querer andar. E talvez nós nem soubéssemos ainda, mas, estar parado (de dentro para fora), estivesse nos roubando as possibilidades e potências do que é a própria Vida e de tudo que ela poderia ser.

    Agora pare e pense um pouco na perspectiva que você tem de Sonho. Qual teu sonho nesse lugar aqui? Qual o teu sonho amanhã? Alguém tem o mesmo sonho do teu? Alguéns? O quão ousado e revolucionário são teus sonhos? Bom. Não que alguém ligue, mas da história que vim cama, estudo, comida, transporte, lazer, não precisaram ser sonhos. Bem sei também que essa não foi e não é a mesma história de outros seres humanos que existem aqui no mesmo tempo que nós. Me relembro agora da história da educadora Luana Tolentino, que ao dar aula em uma escola da rede pública foi arrebatada com uma pergunta certamente mais concreta do que as que fiz: "Professora, para que eu preciso estudar ciências se eu vou trabalhar em obra?"


Qual teu sonho nesse lugar aqui? Qual o teu sonho amanhã? Alguém tem o mesmo sonho do teu?

    É bem claro: não há absolutamente nada de indigno no trabalho em obra. Mas por que o sonho, a perspectiva – enquanto símbolo, afeto, horizonte –, tem possibilidades ceifadas, às vezes cruelmente, antes serem sequer semeadas?

    O uruguaio Eduardo Galeano já traz muitíssimo bem a reflexão sobre "o sonhar" como um dos direitos humanos que foi esquecido da declaração internacional de maneira excepcional no “Direito ao Delírio”. O sonho, a utopia, se assim quisermos, é algo que se põe lá no horizonte. E, ao mesmo tempo, em que damos dois passos, a utopia e o sonho tratam de dar dez: e parece que é só por isso que continuamos a andar.

    Eu diria que a utopia serve para isso, para nos tremer o corpo de sentido e fazer caminhar. Aí a gente pensa em distâncias. Em qual está a distância do nosso sonho individual? Questões para pensar depois do almoço. Qual será a distância entre a periferia e a ensino público de qualidade? Qual seria a distância do percurso que o transporte urbano de uma moradora da zona x faz todos os dias para ir ao trabalho? Mais questões. Qual a distância do menino da pergunta sobre para quê estudar, de uma vaga na universidade ou empregos de dito prestigio social? Qual a distância desse mesmo menino do parágrafo anterior para a realidade em que sua mão de obra não seja necessariamente explorada além de seus limites? Há uma configuração social de roubo e expropriação não só de casas, de camas, de informações e de almoços nos quais vai se refletir depois. A configuração cruel da realidade material em que estamos rouba sonho. E o que contribui pra perpetuar essa perversidade embasada em estruturas de poder no Brasil e no mundo, nesse aqui-agora doloroso (mais para alguns), me parece ser uma cadeia histórica de bem trabalhados e desenvolvidos mecanismos de exclusão econômica e social ao longo de tempos. Nem sequer sonhávamos ousar nascer.

Sonhar enquanto prática se trata, sobretudo, da noção das possibilidades.

    Temo, e digo temo por que é preciso coragem, que tenhamos que observar e apreender cruamente a realidade como ela é. Os governos autoritários como eles são. Os interesses para os quais servem. Num mundo como o nosso, num estado como o nosso, numa cidade e país como o nosso, olhar para isso com os olhos nus requer brio e altivez: penso que para sustentar esse olhar e, mais importante ainda, sustentar uma prática transformadora é vital, literalmente vital, que sonhemos.

    Sonhar enquanto prática se trata, sobretudo, da noção das possibilidades. Para além de percepção da realidade, de que fala o Galeano, é sobre a direção em que queremos ir.

Parece simplista? Pode parecer ingênuo. Mas o sonho, ou mesmo a utopia, são não-realidades, não-lugares somente por que ainda falhamos em nossos esforços de torná-lo a reais. E o não-lugar talvez seja desconcertantemente real num futuro, dependendo aí dos esforços conjuntos que se façam para atingi-los. Não é jamais sobre os finais felizes do cinema americano, não sobre esperança vaga. Não é preciso entrar em cisão com o tempo e o lugar que estamos como ele é, mas é preciso entrar em cisão no imaginário- concreto do nível do que é e do que pode ser.

    No processo que é Sonhar Coletivo aliado a prática, de qualquer modo ainda teremos que lidar com as nossas ambivalências internas. Contradições e conflitos inerentes primeiro a nós mesmos, ao mesmo passo que lidamos com as contradições e conflitos materiais do planeta.

Para sustentar os passos nesse mundo aqui, pelo visto, é necessário que peguemos impulso.

    Mas é tarefa de todos nós pensarmos a organização da vida política social e relacional para o futuro. Lembrando que prática e ação sem um horizonte a frente, transformam o fazer em maquinaria cega: a martelada de prego no meio do ar. Pensar no que se constrói sem imagens que necessariamente sejam as de perfeição de um céu judaico-cristão, ou um paraíso uterino onde tudo existe para servir as nossas projeções mais infantis - mas que permitam o vislumbramento desse não-lugar em que planejamos estar amanhã. É importante não se alienar da consciência desse processo de construção constante. Aí muito além de martelos batendo em pregos: caminhos sendo desbravados e em que estamos caminhando juntos. Abre-se assim precedentes tanto no simbólico, como no prático.

    Para sustentar os passos nesse mundo aqui, pelo visto, é necessário que peguemos impulso. Nos mover um pouco a frente e mais à frente depois.

     Sonho, perspectivas de possibilidades que se desenham a partir do coletivo e de uma prática instrumentalizada de forma dialógica, proativa, ousada e acima de tudo de Vida, penso que são capazes de dar sentido, movimento e quem sabe salvar a própria vida. São capazes de salvar inclusive a vida de todos nós quem sabe. Juntos.

Parafraseando a poesia da fantástica Hilda Hilst, eu me atrevo a dizer: Senhoras e senhores, olhai-nos a nós mesmos e uns aos outros. Re-sonhemos a tarefa de transformar o mundo.


Sugestão de Leitura: Opinião: a pobreza não pode nos tirar o direito de sonhar


Texto escrito por Deborah Falconete.

115 visualizações