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  • Equipe Malamanhadas

Onde meu corpo se meteu?



    Me olho no espelho e tenho a certeza de que erraram a embalagem. Esse corpo não pode ser o meu. Meu corpo pesa, cansa, maltrata… Não me identifico e não me reconheço. Duvido até que seja real!

    Olho ao redor e os corpos não se parecem com o meu porque eu sou a única no mundo a carregar essa “barriga alta”, essas “olheiras tão escuras”, essa “gordura nas costas”, esse “braço flácido” e esse “nariz torto”. Todas elas parecidas entre si, entre padrões de fábrica, e eu aqui.

    Eu, fora de linha. Fim de produção.

    Eles dizem que a academia resolve, mas já frequento há quase 10 anos. Eles dizem que dormir melhora, mas a minha dermatologista disse que as olheiras são manchas genéticas, “nesse caso”. Eles dizem que você não pode comer, mas tem que comer, não pode exagerar, mas tem que se dedicar (muito) e não pode sorrir porque dá rugas, mas tem que ser simpática! Ah… Eles dizem sempre que você não se esforça o bastante porque não conseguem dizer que eles, na verdade, não querem mais ninguém.

     Há anos me dizem o que devo fazer com meu corpo como se eu não soubesse que ele me pertence. Desde que me reconheci mulher, me procuro em algum lugar porque esse corpo, definitivamente, não pode ser o meu.



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