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O nosso amor é proibido, mas não é sujo

Tocar nas mãos da minha amada é uma ação que ofende os olhos críticos e homofóbicos dos cidadãos de bem da nossa cidade. Temos que ser cuidadosas e estar atentas o tempo todo para não sermos pegas. E falando assim, parece que o nosso sonho é sentir a adrenalina do sexo no meio da rua, quando na verdade qualquer tipo de toque pode fazer com que sejamos violentadas, verbalmente e fisicamente. Ao contrário dos filmes pornô com as mulheres de unhas grandes, os saltos altos e os beijos apenas para o entretenimento masculino, na nossa relação tem muito afago e cuidado e na hora da famigerada putaria ás vezes tem calcinha rasgada, olho no olho e pausa para risada.


Eu queria que o mundo soubesse que eu sou feliz e que minha felicidade tem nome feminino. Dá vontade de gritar dentro do ônibus, de mostrar a foto dela e espalhar que essa garota me trouxe de volta à vida. Mas não posso, porque ainda existe medo.

É muito escuro dentro do armário que estamos e mesmo parecendo ser tudo colorido e divertido do lado de fora, as cores que predominam na maior parte do tempo é o vermelho-sangue. A cor da dor. E só de pensar na minha amiga, namorada e cara metade machucada, eu paraliso.


E eu queria que não fosse uma luta. Queria que amar minha mulher fosse só aquele sentimento gostosinho de quando a gente tá junta. Mas não é.

No ditado popular: ” O proibido é mais gostoso”, é um privilégio heterossexual e mesmo que você me diga que as coisas mudaram e que com todas as paradas lgbtqi+ e rodas de conversa sobre diversidade, não há motivo para viver assim, eu vou ter que te lembrar que família a gente não escolhe e que alguns de nós ainda estão aprisionados em igrejas e seus pensamentos retrógrados.


Eu tenho orgulho de todos os meus amigos e amigas que fazem parte desse vale diverso e forte. Sinto meu coração esquentar quando vejo que romperam com tudo que os seguravam e que são capazes de enfrentar o mundo ao lado de seus amados e amadas. Eu ainda não cheguei lá. E eu queria que não fosse uma luta. Queria que amar minha mulher fosse só aquele sentimento gostosinho de quando a gente tá junta. Mas não é.


Então por enquanto fico aqui, sonhando em tocar a nuca e o cabelo dela enquanto estamos na praça de alimentação do shopping. E na realidade o que tenho, são nossos olhos sorrindo ao nos ver de longe, dedos se entrelaçando furtivamente no mercado, e o coração acelerado com a espera das luzes do cinema se apagarem. O arrepio e a satisfação que sinto apenas de te ter por perto não pode ser hiperssexualizado ou condenado. Nossas sensações são puras para nós e o nosso amor não é sujo meu bem, não importa o que eles digam.


Texto escrito por Camila Hilário.

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