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  • Malamanhadas Podcast

No descomeço, era o verbo

Minha menina, peço desculpa.

O caos está instalado, eu sei. Aqui, aí e em todo lugar. Na primeira carta falei muito de desesperança, medo, aflições, sentimentos confusos. Após envia-la pelos correios, recorri à poesia para entender que o que precisamos nesse momento é falar de bons sentimentos. Lembrei de Manoel de Barros e deixo aqui seus versos.


“No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá,

Onde a criança diz:

eu escuto a cor dos passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não

Funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta,

que é a voz

De fazer nascimentos -

O verbo tem que pegar delírio.”

Em tempos de isolamento, uma amiga daqui propôs uma dinâmica. Para você visualizar melhor, vou chama-la de Che. Todo dia de manhã, ela compartilha uma foto do seu café da manhã, com palavras de afeto e reflexões de quarentena. A Che é luz. Desde o primeiro dia que a conheci, eu sabia. Envolvida em milhões de projetos, leituras, oficinas, podcast, feminismo, sororidade. Acolhe tanto outras mulheres que às vezes me pergunto quem a acolhe ao fim do dia.


Hoje, quando enviou a foto do seu café, fez um pedido: Che queria que nós que estávamos naquele mesmo grupo online, compartilhássemos a vista da nossa própria janela para que ela visse através dos nossos olhos e, assim, pudesse ampliar seu horizonte. Isso gerou uma movimentação bonita de fotos de quintais, prédios, gatos na varanda e pombos no telhado. Foi realmente uma boa forma de começar o dia. A Che é luz. Qualquer dia desses escrevo uma carta só falando dela. Vai ser lindo.


Outra amiga também compartilhou comigo algumas músicas que agora estou escutando enquanto escrevo para você, tomando vinho aqui perto da minha janela. Nesses dias, sem me dá conta, venho recebendo muitos presentes afetivos. E isso tem me feito muito feliz. Tenho recebido tanto que até travei aqui na escrita para você. Meus sentidos estão focados na coleta de afetos. Minha amiga, peço desculpas outra vez. Mas vou compensar isso com um presente ao final dessa carta. Espero que você goste.


Feito para acalmar.

Um abraço, passarinha.

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