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  • Equipe Malamanhadas

Mulheres independentes, autossuficiência e outras coisas que incomodam


Para ouvir: Desinibida – Tulipa Ruiz

Certa vez um amigo disse que admirava a forma como eu era independente. Segundo ele, eu transbordava uma autossuficiência que anunciava a todo momento: a minha própria companhia me bastava. Ali, entramos numa conversa sobre o quanto que nós, mulheres, pouco aproveitamos a nossa presença e o quanto que isso interfere no nosso processo de autoconhecimento e de libertação.

Eu passei muitos anos da minha vida me privando de ir a determinados lugares, eventos e viagens pelo simples fato de não ter companhia. Achava errado uma mulher andar sozinha na rua, ocupar uma mesa em um bar sem amigas ou algum parceiro. Até mesmo almoçar sozinha para mim era algo que exigia muito esforço. Quando eu tinha que fazer isso, parecia que algo ali não encaixava. Eu me sentia observada, desconcertada e completamente sem graça.

Eu passei muitos anos me privando de ir a determinados lugares e viagens pelo simples fato de não ter companhia.

Somado a isso, em inúmeros momentos e situações, eu precisava sempre ter por perto alguém que concordasse com as minhas opiniões – isso quando eu emitia alguma. Precisava do aval de alguém para tornar qualquer coisa que eu pensasse válido. Na maioria das discussões em que participava, eu esperava alguém opinar primeiro e, se aquilo falado soasse de forma aceitável para mim, eu acenava positivamente. Se eu discordasse mentalmente, a errada era eu. Então não precisava mais eu falar qualquer coisa que seja. Ainda hoje eu tenho dificuldade em argumentar e defender meus pontos de vista sobre assuntos que eu estudo ou trabalho há anos. Isso também me deixou bastante insegura sobre meus posicionamentos e as decisões que eu haveria de tomar ao longo da vida, tanto do lado pessoal, como profissional.

Essa necessidade de depender do outro, de ter alguém por perto para que tudo que eu fizesse fosse aceito, também afetou a forma como eu me relacionava comigo mesma. Aliás, não havia uma relação entre eu e eu. Eu não conversava comigo, eu não procurava saber sobre os meus gostos, as minhas opiniões e meus desejos. Eu ia na onda em que me carregavam. Eu não me ouvia. A minha própria companhia me doía.

O tempo todo eu me sentida julgada e achava que não importava tanto eu fazer as coisas por mim mesma, eu levantar minhas opiniões e questionamentos dentro de uma discussão. E de eu me sentir. Estar sozinha em casa ou em qualquer outro lugar era um estado angustiante de ser e de viver. Como que se estivesse apenas com a minha própria companhia, eu era a pessoa mais rejeitada e desagradável que já habitou a nossa Terra.

Dessa forma, eu perdi muito tempo sem aproveitar a mim mesma. Sem seguir minhas próprias vontades, desejos e intuições, simplesmente porque eu precisava de alguém ali comigo para ser quem eu achava que era. E eu só comecei a ter noção disso, quando me vi obrigada a ser por mim, sem ninguém por perto. Foi um processo doloroso e ainda hoje é.

Mulheres autossuficientes incomodam. A nossa independência é uma ameaça.

Quando eu senti que eu precisava me aproximar mais de mim, comecei um profundo processo de autoconhecimento. Eu passei a fazer um exercício contínuo de conquista da minha própria independência. Na prática, eu me lanço desafios frequentes para me testar, para saber até que ponto eu consigo chegar apenas comigo mesma, sem depender do outro. Desafios que vão desde a coisa mais boba como ir ao supermercado fazer compras, sentar em um bar sem nenhum acompanhante, ir a um restaurante, pagar uma conta, até coisas que para mim são grandiosas: pegar a direção pela primeira vez na estrada, assistir um filme no cinema, escolher meus próprios caminhos levando em consideração apenas a minha opinião. Meu último feito foi viajar sozinha por uma semana para uma cidade que nunca havia ido e onde eu não tenho nenhum vínculo próximo. Foi uma das experiências mais incríveis que eu já vivi na vida.

Mas esse processo é uma constante luta interna e externa. Porque mulheres autossuficientes incomodam. A nossa independência é uma ameaça. É recorrente os questionamentos que recebo por fazer determinadas coisas sem ter um companheiro (geralmente um homem) por perto.


Porque mulheres independentes e autossuficientes são uma ameaça? Por acaso os homens acham que assim vamos conseguir dominar o mundo?


Texto escrito por Aldenora Cavalcante.

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