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Futebol feminino para quê?

Atualizado: 9 de Jul de 2019



    Marta é sem dúvida a melhor jogadora do mundo, seus títulos e conquistas falam por si. A FIFA (Federação Internacional de Futebol) elegeu-a pela sexta vez e essa não é a parte inspiradora da sua história. Ela é de uma cidade pequena chamada Dois Riachos, com pouco mais de 12 mil habitantes, no estado de Alagoas. Como toda nordestina, sua vida não foi fácil e as oportunidades eram poucas. Para ser a inspiração de muitas meninas, ela batalhou muito.

    Marta conviveu ou ainda convive com as mais diversas dificuldades para sobreviver no futebol, o esporte mais aclamado do país. Muitos talentos como ela se perdem pelo preconceito, pela falta de estímulo salarial, social, pela falta de oportunidade. Aliás, as oportunidades são ainda mais reduzidas, se considerarmos o futebol feminino, já que são poucas e raras as escolinhas que trabalham fomentando, desde cedo, a entrada dessas meninas no esporte.

    Trazendo essa realidade para o lugar que eu vivo que, assim como a de Marta, é nordestina, eu percebi que mesmo com todo reconhecimento que a melhor jogadora do mundo trouxe de inspiração para as brasileiras, não houve tantas mudanças assim. Aqui em Teresina-Piauí temos um número mínimo de escolinhas de futebol que desenvolvam a categoria feminina. Resolvi ir mais afundo, analisando as principais existentes na capital piauiense para testar essa realidade.

    Das quatro escolinhas que pesquisei é possível observar a disparidade quantitativa entre meninos e meninas. As causas culturais do município e do estado, bem como a estrutura que a escola integra a diversidade de jovens – uma situação que pode ser observada nacionalmente –, as condições socioeconômicas refletem a realidade em que as meninas não estejam praticando o futebol. Voltar o olhar para essas escolinhas é uma forma de problematizar a ocupação de mulheres no esporte, já que é uma realidade que vem desde a base.

    A sociedade e a família também cumprem o papel de influenciadoras no acesso de crianças e jovens no esporte. Na hora de procurar uma atividade física para sua cria, alguns pais ainda preferem separar os esportes por gêneros, já que alguns professores responsáveis por essas escolinhas acreditam que não há interesse dos responsáveis dessas crianças em observar o crescimento do futebol feminino através de uma Copa do Mundo.


"Não vai ter uma Formiga para sempre, não vai ter uma Marta para sempre, não vai ter uma Cristiane e o futebol feminino depende de vocês para sobreviver"

    Em um dos lugares, percebi que o crescimento foi evidente tanto em números quanto para a cultura do ambiente. O que começou com duas alunas, hoje, já existem duas turmas voltadas somente para futebol feminino. Isto em uma escolinha particular, onde os pais matriculam a criança e pagam para que ela esteja ali aprendendo os fundamentos e, quem sabe, sonhando em se tornar um dia uma jogadora profissional.

    Quando a seleção brasileira foi eliminada nas oitavas de final pela França, a sociedade voltou os olhos para o futebol feminino. Em conversas com essas escolinhas, percebi que alguns pais ficaram interessados em colocar suas filhas para praticar o esporte, entrando em contato com esses estabelecimentos e tentando entender um pouco da metodologia e da possibilidade de ver sua filha praticando o esporte de Marta.

    Entretanto, tive outras opiniões divergentes com relação a visibilidade da Copa do Mundo Feminina de Futebol com a possibilidade do crescimento de meninas praticando o esporte desde a base. Um dos responsáveis de outra escolinha disse que a Copa não seria um motivo para estimular a procura de meninas para a prática do esporte e muito menos dos pais.

    Mas o que vimos ao final daquela derrota para a França foi um discurso emocionante e engasgado de uma Marta que muitas vezes precisou lutar sozinha para conquistar o seu espaço. "Sem dúvida é um momento especial, a gente tem que aproveitar. Eu digo isso no sentido de valorizar mais, Valorize! [...] Não vai ter uma Formiga para sempre, não vai ter uma Marta para sempre, não vai ter uma Cristiane e o futebol feminino depende de vocês para sobreviver”.

    A tocante frase da jogadora rodou os mais diversos veículos midiáticos e revelou uma problemática que o futebol feminino enfrenta: a falta de valorização. O futebol feminino precisa ser valorizado não somente no país do futebol, mas em todo o mundo. Precisamos evoluir mais, chorar mais, precisamos de apoio, de estímulo, de representatividade, de patrocínio, de Instituições que queiram alavancar o futebol feminino no país, de projetos que incentivam o surgimento de novas meninas, precisamos, principalmente, de respeito. Ainda estamos longe de ser “o país do futebol”.


Texto escrito por Nariani Sousa.

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