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EPISÓDIO #33 Série Justiça Reprodutiva: Eu sou mulher com deficiência

Primeiro episódio da Série Justiça Reprodutiva publicado em 06/06/2022




Na imagem, vemos quatro molduras de janelas na cor branca, com formato arredondado na parte superior. Dentro de cada moldura temos uma mulher diferente uma da outra..O fundo da imagem é bege. A imagem toda apresenta uma textura de papel amassado, possuindo vários pontinhos de luz na cor branca. Na primeira janela da esquerda para a direita, na parte superior, temos uma mãe amamentando seu filho recém nascido, ela é uma mulher negra em um tom marrom que se assemelha ao barro, com uma criança também negra de pele um pouco mais clara em seu colo. Ela possui um cabelo black power preto, veste um blusão verde musgo, uma calça clara em um tom branco quase bege acinzentado e está calçando um sapato amarelo. O recém-nascido veste um macacãozinho na mesma cor clara da calça da mãe. Ela segura o filho sentada em uma cadeira de rodas de estofado azul, com rodas cinza escuro. Ao fundo a cor laranja é predominante, realçando a figura da mãe com o filho.   Na segunda janela, da esquerda para a direita, na parte superior vemos uma mulher branca com a pele em um tom de rosa claro que está grávida e tem sua barriga à mostra. Seus cabelos são longos e pretos, os braços tocam as extremidades da barriga como se estivesse acariciando, ela usa um top de academia na cor laranja bem escuro quase vermelho e uma calça em um tom branco quase bege acinzentado, em sua barriga podemos perceber sutilmente o desenho de uma peça de quebra cabeças na intenção de fazer referência ao autismo. Ela está sentada no chão com as pernas entrelaçadas. O fundo da imagem é azul marinho.   Na primeira janela da parte inferior, da esquerda para a direita, vemos uma mulher negra retinta carregando uma criança de colo em um sling (canguru) colado ao seu corpo, ela tem cabelo preto black power, usa uma blusa de mangas longas em um tom branco quase bege acinzentado, o sling (canguru) em que ela carrega a criança é de tecido em um tom de verde musgo. Na região dos olhos vemos um símbolo de menos no olho esquerdo e um de mais no olho direito na tentativa de indicar que ela possui um certo grau de cegueira. O fundo da imagem é azul marinho.   Na segunda janela da parte inferior, da esquerda para a direita, vemos o close de um rosto de uma mulher branca com a pele em um tom de rosa claro. Seus lábios carnudos vermelhos aparecem em destaque, em sua orelha percebemos um aparelho auditivo nas cores branco e azul. O cabelo é preto cacheado preso com uma tiara verde claro. Uma das mãos está encostada ao rosto como se estivesse posando para um retrato. Da roupa só é possível perceber que tem manga longa e que a cor é verde musgo. Ao fundo, a cor laranja é predominante.
Capa do Episódio #33 | A imagem contém texto alternativo


Confira o episódio nas plataformas de áudio: Deezer | Spotify | Google Podcast | Stitcher


Confira a tradução do episódio em libras: Canal Malamanhadas Podcast


Confira o roteiro na íntegra:



LOCUÇÃO ALDENORA:

Oi! Eu sou Aldenora Cavalcante


LOCUÇÃO JADE:

E eu, Jade Araújo. Estamos começando o Malamanhadas Podcast


VINHETA DO MALAMANHADAS


LOCUÇÃO ALDENORA:

Se você for ouvinte frequente do Malamanhadas, deve saber quem somos, todas aquelas formalidades habituais: que somos podcasters, jornalistas, piauienses, e outras características que geralmente compõem a nossa bio. Mas, neste episódio e nos três seguintes que serão lançados ao longo desse mês de junho, eu gostaria que você lembrasse da gente a partir de uma outra descrição. E jaja vamos te explicar o porquê. Por isso, peço licença para recomeçar esse podcast.


EFEITO REBOBINA

EFEITO DO ÁUDIO SENDO TOCADO DE TRÁS PARA FRENTE

LOCUÇÃO ALDENORA:

Agora sim. Vamos começar de novo. Oi, eu sou Aldenora Cavalcante, uma mulher negra de pele clara. Tenho uma deficiência física no braço direito, onde meu braço não estica por completo e não tenho o polegar direito. Uso óculos de grau com uma armação meio transparente. Tenho o nariz mais ou menos fino e a boca um pouco grossa. Meu cabelo é um cacheado volumoso, castanho escuro, bem abaixo dos ombros. Neste momento, estou com uma blusa rosa e com um fundo branco atrás de mim. Pronto. Essa sou eu. E agora, convido minha parceira neste podcast a se autodescrever também, vamos lá Jade?!


LOCUÇÃO JADE:

Oi, eu sou Jade Araújo, uma mulher de pele clara, olhos castanhos claros, nariz e boca pequenos. Uso óculos de grau com uma armação marrom tigrada, anéis e brincos. Meu cabelo é um crespo black armado maravilhoso, da cor castanho escuro. Neste momento, estou com uma blusa preta e com um fundo branco atrás de mim. Essa sou eu e estamos começando agora o Malamanhadas Podcast.

VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA

LOCUÇÃO ALDENORA:

Este é o primeiro episódio da nossa Série Justiça Reprodutiva que vai tratar ao longo do mês de junho de um tema muito caro para nós, mulheres: o direito de decidirmos, de forma livre, sobre maternidade, sexualidade e a garantia de acesso humanizado aos serviços de saúde reprodutiva e direitos diversos.


LOCUÇÃO JADE:

A Justiça Reprodutiva amplia os olhares a questão dos direitos sexuais e reprodutivos e considera a luta de mulheres - negras, indígenas, lésbicas, com deficiência, por exemplo - em prol da justiça social e direitos humanos. Garantir esses acessos deve ser uma luta constante na agenda feminista.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Esse conceito que a Jade trouxe é só uma pontinha do que discutiremos aqui, nesta série em que vamos nos aprofundar em como a injustiça reprodutiva, ou seja, a negação e a violação desses direitos atinge as mulheres, em especial, as mulheres com deficiência no Brasil, um país que ataca de forma constante os nossos direitos.


LOCUÇÃO JADE:

Exatamente. São 4 episódios, onde vamos mergulhar nessa temática a partir da vivência de mulheres com deficiências diversas que residem em diferentes estados brasileiros. Temos gente do Pará, Piauí, Pernambuco, São Paulo e Maranhão. Esse é o primeiro spoiler. Vamos deixar no ar um pouco do que vem nos próximos minutos.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Vou dizer mais: a gente também conversou com outras mulheres que nos ajudarão a entender o acesso a políticas públicas, o direito à sexualidade, aborto e consentimento na hora do parto. Além da luta e reivindicação por direitos. Mas, nesse episódio de abertura, vamos primeiramente conhecer quem são essas mulheres atravessadas por todas essas questões.


LOCUÇÃO JADE:

Produzimos um material com o objetivo de que fosse 100% acessível e, por isso, você pode encontrar nossos episódios no Youtube, em vídeos com a tradução de todo o conteúdo em libras. Toda essa produção só foi possível a partir da Campanha Nem Presa, Nem Morta, que luta pela descriminalização do aborto no Brasil, sob o selo do Futuro do Cuidado, uma iniciativa colaborativa, realizada por Grupo Curumim, Anis - Instituto de Bioética, Portal Catarinas, Rede Feminista de Saúde e Coletivo Margarida Alves.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Essa série foi criada com o intuito de unirmos forças para lutar contra uma sociedade menos machista e capacitista, e que proporcione a nós, mulheres com deficiência, acesso a direitos que nos são negados diariamente. Vamos com a gente?


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


SOM AMBIENTE DE RUA MOVIMENTADA


SOM AMBIENTE DE PASSOS EM MOVIMENTO

SOM DE PORTA SE ABRINDO


ÁUDIO MÁRCIA GORI:

Oi, meu nome é Márcia Gori! Tenho 58 anos. Fui militante por quase 30 anos na área da pessoa com deficiência, tenho uma deficiência física, sequela de poliomielite aos nove meses. Andei de aparelho de tutor e muletas axilares até 99, com 36 anos, depois eu fui para a cadeira de rodas e hoje estou utilizando cadeira de rodas motorizada, devido às sequelas que foram piorando. Não tenho síndrome pós-pólio, graças a Deus!


LOCUÇÃO JADE:

A Márcia é de São José do Rio Preto, São Paulo. Funcionária Pública, mãe de duas filhas: Janaína, de 32 anos e Mariana, de 31. Mas para vocês poderem visualizar melhor nossa convidada, vamos ouvir a sua autodescrição.


ÁUDIO MÁRCIA GORI:

Eu sou uma mulher branca. Pouquinho acima do peso, cabelo grisalho, uso um óculos redondo, de aro vermelho fino. Tô de batom bem vermelho na boca, tô com um vestido preto estampadinho de coraçãozinho e flechinha azul. E atrás de mim tá a minha casa, que tem paredes, quadros e etc… Sinto-me honrada de participar do podcast da Jade, uma pessoa maravilhosa que eu sei que tem um trabalho lindo. E eu tô aqui. O que vocês precisarem de mim, eu tô por aqui, está bom?


LOCUÇÃO JADE:

Eu que te agradeço por esse papo!


ÁUDIO MÁRCIA GORI:

Esse é o resumo da Márcia Gori, tá?


LOCUÇÃO JADE:

Respira um pouco, mulher, que ainda não acabou! Tem muita coisa que nossas ouvintes precisam saber. Mas jaja a gente fala mais sobre a Márcia.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Por coincidência, ou não, a gente também tem aqui na série uma outra mulher que tem 58 anos e também teve poliomelite. Mas para falar dela, a gente vai ter que sair de São Paulo e vir aqui para nossa terrinha do sol, o Piauí.


MÚSICA


LOCUÇÃO ALDENORA:

Nossa parada agora é na casa de uma amiga da Ângela Teixeira. Mas vou deixar ela mesmo explicar porque estamos aqui.


ÁUDIO ÂNGELA TEIXEIRA

Eu me chamo Ângela Teixeira, eu tenho 58 anos, sou mãe de um filho, meu filho tem 28 anos, sou morena, meu cabelo é crespo, mas, eu sempre gosto de dar de vez em quando uma selagemzinha, um banhozinho de brilho para esconder os brancos que eu chamo de reflexo da natureza. E eu gosto de andar bem à vontade e hoje eu tô aqui na casa de uma amiga, amigona do peito mesmo, até combinei com ela pra fazer do computador dela, porque o meu está com problema.


LOCUÇÃO ALDENORA:

A qualidade do áudio está ótima! Que bom que você foi para a casa da sua amiga! A Ângela é formada em Bacharelado em Administração e voltou recentemente para os estudos. Ela está concluindo o curso de Serviço Social. O diagnóstico da poliomelite veio nos seus primeiros anos de vida, depois de não ter tomado corretamente o ciclo vacinal completo para combater a doença. Seus pais perceberam o que estava acontecendo em um dia quando Ângela, então com um ano e quatro meses, não conseguiu se levantar sozinha da rede em que estava dormindo, enquanto sua mãe fazia o café da manhã.


ÁUDIO ÂNGELA TEIXEIRA

Ela estava preparando o café do meu pai e ela disse que eu chorava muito, e ele dizia assim, “vai lá tirar ela da rede’’, aí a minha mãe dizia, “não, eu não vou pegar ela por que ela todo o dia ela desce da rede, quando ela acorda ela vem atrás de mim aqui na cozinha, então eu não vou lá não, estou terminando o seu café’’. Aí ele disse que cada vez mais eu chorava, até que a minha mãe foi lá. Então, ela disse que quando ela botou as mãos e me tirou da rede, as minhas pernas estavam todas, tudo mole, mole, mole, o meu pai se desesperou naquele momento e me levaram no médico, e aí eu ainda passei, segundo a minha mãe e o meu pai, seis meses hospitalizada, presa na cama, que o médico passou para prender o meu corpo para eu não fazer muito movimento e não ficar com o corpo todo defeituoso. Mas aí a paralisia ela afetou mais a minha perna esquerda, minha perna esquerda ela diminuiu, meu pé virou para trás, minha perna encurtou também para trás, e afetou um pouco o meu pé direito, mas a minha perna esquerda é a que ainda dá condição de ficar em pé e deu andar com uma ajuda do aparelho ortopédico.


LOCUÇÃO ALDENORA:

O aparelho ajudou durante muitos anos, mas hoje ela prefere usar a cadeira de rodas porque ela dá mais autonomia e reduz a dependência de outras pessoas.


ÁUDIO ÂNGELA TEIXEIRA

Hoje eu prefiro uma cadeira de rodas, porque ela me dá mais liberdade de eu ir e vir sozinha pra qualquer lugar, sabe? Eu ando, eu vou sozinha sem precisar tá dependendo de um ombrozim para me apoiar, né? Então, eu me sinto feliz nessa cadeira. Eu me sinto livre. Bem livre mesmo.


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO JADE:

A falta de autonomia também acompanhou Ângela, durante a maternidade e os primeiros contatos com o seu filho, Igor Carneiro, na época recém-nascido.


ÁUDIO ÂNGELA TEIXEIRA

Eu não tive sabe, aquele negócio de cuidar dele. Eu só servia pra dar peito pra ele. Ele só me procurava pra mamar, mas assim, quando ele ficava muito tempo no meu colo, que ele via que eu não saia, que eu não caminhava pra tirar ele dali, ele ficava chorando. Aí qualquer pessoa que passava ele dava o braço para aquela pessoa, aí eu dizia assim, ele levava né? Às vezes eu tava assim sentada e ele já caminhava, ele vinha levantava assim a minha blusa, entrava debaixo da minha blusa e mamava, né? Mamava, mamava, e depois ele só ia brincar, eu sempre costumo dizer pra ele, “eu só servia pra ti, pra dar peito”, outra coisa ele não queria comigo, mas era sério, tu acredita?


LOCUÇÃO JADE:

A gravidez não planejada foi escondida durante toda a gestação e, por isso, Ângela não realizou nenhuma consulta de pré-natal. Quando o bebê nasceu, trouxe também muitos preconceitos dentro da família, em especial do seu pai que não aceitava a situação. Quando voltou da maternidade, com seu filho nos braços, Ângela também atraiu a atenção de quem achava que ela não seria capaz de gerar uma vida.


ÁUDIO ÂNGELA TEIXEIRA

Quando eu cheguei em casa tinham pessoas que iam ver lá pra crer se aquilo era verdade mesmo, se era verdade mesmo que eu tinha tido um filho. Sabe aquela coisa, as pessoas iam lá só pra ver, pra crer, não acreditavam que eu, uma pessoa com deficiência, como eu pude ter que fazer aquele filho, ter aquele filho? Então, às vezes isso me fazia sentir mal.


LOCUÇÃO JADE:

De acordo com o último censo do IBGE, 14% da população é de mulheres com deficiência no Brasil e elas ainda carregam diversos estereótipos, se sentindo inferiorizadas, solitárias, preteridas e principalmente infantilizadas. Elas precisam provar suas habilidades, deixar claro suas intenções, pois muitas vezes as outras pessoas já as descartam para alguma função, como a de mãe, por exemplo.


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO JADE:

Lembra que falei que a Márcia tinha muito o que contar sobre sua vida ainda neste episódio? Pois é! Tem duas características dela que queria destacar. A primeira é o afeto e o amor pela família.


ÁUDIO MÁRCIA GORI

Me sinto uma pessoa abençoada por ter a família que eu tenho, certo? Minha mãe hoje conta com 84 anos, tem Alzheimer. Decidi não colocá-la em lar de repouso, lar de idoso porque, eu me sinto em dívida com ela, por ela ter cuidado de mim, ela poderia ter me deixado no Hospital das Clínicas. Como muitas mães deixaram na época, mas ela não fez isso. Ela me criou, me educou dentro das possibilidades dela, dentro da realidade dela.


LOCUÇÃO JADE:

A Márcia tem um orgulho imenso da família e da rede de afeto construída entre eles. O incentivo pela autonomia da criação das filhas, era estimulado constantemente pelo esposo e a mãe, o que contribuiu no desenvolvimento dos laços afetivos entre elas.


ÁUDIO MÁRCIA GORI

Principalmente a gente como mãe, a gente erra muito, né, Jade? Não sei se você é mãe.


LOCUÇÃO JADE:

Ainda não, Márcia! Tá cedo!


ÁUDIO MÁRCIA GORI

Mas a gente erra para caramba, né? Cê vai ver! E como erra, fia! Depois quando cê olhar para trás e falar assim: nossa, fiz um baita de um estrago! Mas por outro lado, você vê que você não fez tanto estrago quando você vê seus filhos seguindo o caminho do bem.


LOCUÇÃO JADE:

Não dá para deixar de lado o saldo positivo, né Márcia? Entre erros e acertos, o caminho é só orgulho.


EFEITO DE VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO JADE:

A segunda característica é que ela dedicou parte da vida à luta pela garantia de direitos das mulheres com deficiência. Uma prova disso foi a criação da ONG “Essas Mulheres” em 2013, que partiu do incômodo de não ver as mulheres sendo representadas dentro da luta das pessoas com deficiência.


ÁUDIO MÁRCIA GORI

E eu comentava com as entidades, né: “Precisa se discutir sobre o assunto mulher”. Mas muitos achavam que não. Aquela questão da invisibilidade feminina, né? Já é praticamente invisível, nos direitos. Imagina ainda com deficiência. O próprio deficiente tendo preconceito da pauta. Aí foi aonde que me provocou a ideia de montar uma ONG. Foi em 2013, até 2018, 2019. Até 2020 quase a ONG funcionou. Aí eu também já fiquei viúva em 2018, aí eu dei uma paralisada com tudo. E eu tirei um ano, acabou sendo 2 anos sabático! E até hoje ainda não me sinto preparada para voltar para a militância.


LOCUÇÃO JADE:

A perda de uma pessoa tão importante que você compartilhou a vida por trinta anos é sempre um baque, né, Márcia?


ÁUDIO MÁRCIA GORI

Mas ele também nunca me impediu d’eu fazer as coisas que eu queria fazer. Ele sempre me apoiou e isso sempre me manteve do lado dele.


LOCUÇÃO ALDENORA:

A perda do marido, a pausa na militância e a aproximação da aposentadoria fizeram com que a Márcia revisse as prioridades da vida.


ÁUDIO MÁRCIA GORI

Eu acho que hoje eu tenho vontade, vou ser muito sincera com você, é de namorar de novo, casar de novo. Ter um outro tipo de relacionamento, sem a responsabilidade de criar filho, educar filho, sabe?


LOCUÇÃO ALDENORA:

É, Márcia, às vezes o que a gente quer dá vida é sombra e água fresca, tranquilidade e tempo para se dedicar a novos amores. Porque disposição, tu tem de sobra!


MÚSICA


LOCUÇÃO JADE:

Deixa eu contar para vocês. Não é só a idade e a causa da deficiência que a Márcia e a Ângela têm em comum. Uma coisa que liga essas mulheres de uma forma podemos dizer aquela palavrinha, como é mesmo?

LOCUÇÃO ALDENORA:

Amor incondicional?


LOCUÇÃO JADE:

Isso! O que liga a Márcia e a Ângela é justamente o amor incondicional aos filhos.

ÁUDIO ANGELA

Ser mãe hoje pra mim foi uma mudança muito grande na minha vida, um passo, e a minha deficiência, hoje eu vejo que a minha deficiência não atrapalha em nada. Hoje falo por experiência própria, eu me sinto uma grande mãe, uma grande mulher.


LOCUÇÃO JADE:

Quem você ouviu aí foi a Ângela que é mãe do Igor Carneiro que inclusive ajudou ela na função de fazer nossa entrevista acontecer. Esse amor e afeto que ela sente pelo filho, faz ela se conectar com outras mães e mulheres da nossa série. Uma delas é a Sayaka Fukushima, lá de Recife, Pernambuco.


ÁUDIO SAYAKA FUKUSHIMA

É porque é muito emocionante falar da maternidade depois que você tem seus filhos já fora de casa, dá aquela coisa da nostalgia. Mas para mim foi maravilhoso, eu nasci para ser mãe mesmo.


LOCUÇÃO JADE:

A gente entende, Sayaka. O amor é tanto que você já adiantou o assunto da maternidade antes mesmo de se autodescrever. Fala aí um pouco de ti para os nossos ouvintes conseguirem te visualizar melhor.


ÁUDIO SAYAKA FUKUSHIMA

Eu sou de origem asiática, eu tenho 1m64, cabelos negros, na altura do ombro, liso, pele amarela como chamam, da cor amarela e os olhos são amendoados e nariz um pouco achatado, bochecha bem saliente, tô com um blusão de jeans e estou no quarto com paredes brancas e sentada na cama. Eu acho que pronto.


LOCUÇÃO JADE:

Tem certeza que não deixou passar nada?


ÁUDIO SAYAKA FUKUSHIMA


Esqueci de falar na minha audiodescrição que eu tenho deficiência auditiva. Ensurdecida.


LOCUÇÃO JADE

Agora sim, completinho.


MÚSICA


LOCUÇÃO ALDENORA:

A Sayaka mora em Recife, no Pernambuco, com a mãe e um sobrinho. Formada em Gestão Ambiental, passou um bom tempo trabalhando nessa área, mas também já trabalhou com tudo enquanto: motorista de aplicativo, entrega de logística, venda de produtos de cosméticos nas redes sociais, lingeries, enfim, várias coisas. Hoje, com 51 anos, tem no trabalho uma fuga, principalmente após a perda do seu marido, carinhosamente lembrado por ela como sua alma gêmea.


ÁUDIO SAYAKA FUKUSHIMA

A minha válvula de escape para que eu não ficasse em depressão foi entrar de cabeça no trabalho. Então, eu trabalhei de domingo a domingo, sempre ocupando a mente, trabalhando, sendo ativa. Foi o que me segurou para não desabar de vez.


LOCUÇÃO ALDENORA:

No trabalho, a deficiência auditiva nunca foi uma limitação.


ÁUDIO SAYAKA FUKUSHIMA

A questão da deficiência não me impediu, pelo contrário, quando eu falava era uma deficiência que é invisível porque não está visível. Não aparece. Eu não uso moleta, eu não uso, né, bengala, então não é uma coisa aparente, de identificar. Quando eu falo é que a pessoa, “ah é, nem parece”, sabe? Mas, todos os meus trabalhos, que eu executei, que eu fiz parte, nunca me impediu de nada, a deficiência auditiva. Então, algumas limitações eu tenho, reuniões quando a acústica não é boa, então, esse período de pandemia foi bem cruel, porque todo mundo usando máscara, eu não conseguia ler, fazer a leitura labial, então para mim era horrível está todo mundo de máscara e falando, eu não conseguia identificar o som, não entendia, não compreendia. Interessante que a voz feminina para mim, eu consigo escutar bem, assim a acústica é boa. A masculina, como é mais abafada, mais grave, é terrível, não escuto mesmo. eu até brinco, eu digo que até a questão de entender, eu entendo, ouço melhor a voz feminina. A minha surdez é feminista.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Isso mesmo, Sayaka, foi o que pensei ao ouvir o seu relato.


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO ALDENORA:

E por falar na deficiência auditiva da Sayaka, vamos fazer um experimento aqui nesse podcast. Para isso, precisaremos que vocês, ouvintes, ajustem bem o fone de ouvido direitinho nos dois lados para uma melhor experiência.

UM SILÊNCIO

LOCUÇÃO ALDENORA:

Pronto? Tudo certinho? Então, vamos lá!


SOM AMBIENTE DE RÁDIO PROCURANDO A ESTAÇÃO

LOCUÇÃO JADE:

Oi, testando. Testando.

SOM AMBIENTE DE RÁDIO PROCURANDO A ESTAÇÃO

LOCUÇÃO JADE:

Vocês notaram a diferença? O modo como vocês estão escutando agora, é um pouco de como a Sayaka escuta: apenas pelo ouvido esquerdo. Isso acontece porque ela nasceu com surdez completa no lado direito. E eu vou pedir para ela mesma explicar como foi isso.


ÁUDIO SAYAKA FUKUSHIMA

Eu nasci e me criei no interior e no meio do mato que é uma granja, eu morava numa granja. Então, até para se deslocar para a escola eu tinha que sair do meu município para outro município para estudar. E até então, na minha vida escolar, eu nunca tinha percebido a questão da surdez do ouvido direito porque o esquerdo compensava. Aí, o que acontece. Quando eu tava no ginasial, uma coleguinha da escola veio falar comigo, eu acho que eu tinha 10 anos, 9 anos, não sei bem. Ela veio falar aquela coisa do segredinho da escola. Veio falar no meu ouvido direito e eu não escutei. Solicitei para ela falar de novo e eu só senti aquele, o bafo do hálito aqui no ouvido quente da boca e não escutava nada. Ai foi quando eu cheguei para a minha mãe e minha mãe ela é surda bilateral, foi uma consequência da guerra, segunda guerra mundial, ela é japonesa, então foi um período de pós guerra que ela sofreu, ela pegou sarampo e do sarampo houve a perda auditiva bilateral. Então, quando eu falei a minha mãe que não escutava nesse ouvido, ela, foi um sinal de alerta, abriu um sinal vermelho, tivemos que vir para a capital para fazer uma série de exames, para poder ver o porque que eu não escutava no direito. O esquerdo tudo bem, mas o direito não vinha som, não escutava, fiz minha audiometria e na audiometria realmente o médico chegou e disse olhe, “infelizmente, eu não tenho como precisar se foi na barriga da sua mãe, congênito, ou se foi depois, mas não tem até hoje medicina, não tem cirurgia, não tem como você voltar a escutar no ouvido direito. Como você tem o esquerdo, então é importante preservar, evitar fone de ouvido, ir para lugares com muito barulho, quanto mais puder evitar o som muito alto, né”. Aí foi essas as orientações que ele me passou. E, assim, quanto a minha vida escolar, acadêmica, nunca tive dificuldade, sabe? Sempre avisando os meus colegas: olhe, a postura de uma reunião, fiquem todos do meu lado esquerdo, quem ficar do meu lado direito eu não vou conseguir escutar.


SOM AMBIENTE DE RÁDIO PROCURANDO A ESTAÇÃO


LOCUÇÃO JADE:

Vocês ouviram o relato exatamente como a Sayaka escuta, apenas pelo lado esquerdo. Mas desde os 47 anos, ela perdeu 40% da audição do ouvido esquerdo, o único em que ela ouvia por completo. Para não ficar sem escutar, a Sayaka começou a usar um aparelho auditivo que fez ela ouvir com os dois ouvidos pela primeira vez na vida. Foi emocionante. Explica pra gente, Sayaka.


ÁUDIO SAYAKA FUKUSHIMA

Eu nunca tive um aparelho porque o ouvido esquerdo ele compensava a surdez do direito. Então, eu só vim a ter essa necessidade de usar aparelho porque eu tive uma perda no ouvido que eu escuto, uma perda de 40% e essa perda é irreversível. Então, perdeu, perdeu. Aí eu fui buscar um aparelho para conter mais essa perda, né. E ele é um aparelho interessante. São dois, eu uso em cada ouvido. Então, o ouvido que é o direito que eu não escuto, é zero, zero totalmente porque essa surdez do ouvido direito atingiu os neurônios. E, o que acontece, esse aparelhozinho me dá a possibilidade de ter noção de localização, que pra gente que tem deficiência auditiva, é terrível. A gente não sabe de onde vem o som, principalmente quem é surdo unilateral que é o meu caso. Eu sou surda unilateral, do ouvido direito e ensurdecida no ouvido esquerdo com perda auditiva. Então, esse aparelho no sistema wirelless, ele envia o som recebido no ouvido direito que é zero, para o ouvido esquerdo, me possibilitando ter noção que todo som que vem do meu lado direito, eu capte de onde é que vem. Então, pela primeira vez, eu nunca tinha escutado nada do meu ouvido direito, nem um celular, nada, um telefone, quando eu fiz o teste, eu me emocionei, chorei muito porque até então eu nunca tinha escutado no meu ouvido direito e para mim é muito emocionante você saber de onde é que vem o som, para você ter a noção, “ah, vem aqui, é um barulho assim, assado”, eu não tinha essa noção e foi bem emocionante.


MÚSICA


LOCUÇÃO ALDENORA:

A Jade falou lá no comecinho que a maternidade era o elo entre nossas personagens. E agora a gente vai lá no Pará, mais precisamente na cidade de Marituba, que fica a 11 quilômetros da capital Belém. Vamos entender um pouco como a Mara Andrade, que quando era mais nova, não se interessava tanto pela maternidade, e que depois o desejo de ser mãe surgiu mais vivo do que nunca.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

Uma amiga minha engravidou e nossa, eu vivi assim com ela, a gravidez, o nascimento do bebê e tal, e eu fui me apaixonando, assim, por esse mundo e aí nasceu esse desejo de ser mãe. Mas aí, eu não tinha ninguém, né? Tinha desejo de ser mãe, mas eu era solteira. Só mesmo os ficazinhos, na época.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Mas isso foi na época do fim da adolescência, né Mara? Depois você se tornou mãe de dois filhos. Mas antes de entrar nesse assunto, por favor, vamos ouvir a tua autodescrição.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

Eu sou uma mulher branca de cabelos platinados No meio das costas, liso. Acho que eu tenho que? 1m e 60cm, mais ou menos isso. Eu sou mãe de 2 filhos, um casal, um menino de 11, que se chama Darwin, ele é neurodiverso e uma menina de 4 anos que se chama Melanie e, enfim, não apresenta nenhuma característica neurodiverso, até então. Eu estudo psicologia na UFPA. É uma coisa que eu tô muito apaixonada! Eu tenho 33 anos, vivo uma união estável há 7 anos. Sou mulher cis e bi. Por enquanto, é isso.


LOCUÇÃO ALDENORA:

A Mara é uma mulher que nasceu cega. A deficiência foi consequência de um glaucoma.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

Então naquela época foi bem difícil a descoberta. Foi uma descoberta bem tardia e aí as pessoas tentaram fazer uma reversão e tal, só que já era tarde, eu acabei perdendo um pouco do resíduo que eu tinha e aí eu fui crescendo, né? Até então, eu achava que era tipo, super normal todo mundo não enxergar. Eu achava que todo mundo era como eu. E aí depois eu fui me percebendo diferente das outras pessoas e fui para uma escola especializada no atendimento de crianças cegas e lá eu comecei a me sentir fazendo parte de algum grupo e foi bem interessante. Só que como eu não tinha pessoas para estar me levando para essa escola o tempo todo, eu ficava afastada e, tipo, eu passava um ano e depois eu parava de ir e aí foi chegando a adolescência, eu via as minhas amigas já sendo azarada pelos gatinhos e tal, e comigo não acontecia isso. Eu pensava assim, “nossa, então é como eu sou diferente, né? Vai acabar que ninguém vai me querer”. Mas aí, depois é eu fui começando a achar os meus passos e tudo foi se encaixando.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Agora que os nossos ouvintes conseguem te visualizar melhor, Mara, fala um pouquinho sobre esse teu desejo de ser mãe.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

Então, eu não fui criada por, por mãe assim, então eu não tinha essa essa visão de mãe de um ser supremo e aquela coisa toda romantizada. Não queria ter filhos, inicialmente. E, enfim, o desejo pela maternidade foi nascendo aos poucos. Até que eu engravidei planejadamente. Mas inicialmente assim, por volta dos meus 16, 18 anos, eu nem sonhava em ser mãe. Eu achava que ser mãe era algo muito sacrificante, até porque eu imaginava assim, você se doar pra alguém e depois aquele alguém não ser uma pessoa que sei lá que, que que tivesse ali contigo. Tipo a pessoa ali que deu todo o suporte e depois que essa pessoa estava, pronta para voar, ia embora, e esquecer. Eu não sei, eu tinha essa visão de filho.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Desejados, os filhos sempre foram. Mas a maternidade foi e é para Mara, um processo real, sem muita romantização.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

Eu não sou essa mãe que chorou quando os bebês nasceram. Amo as crianças e tudo, mas acho que eu não sou só mãe, né? Eu sou mulher, eu sou esposa, eu sou estudante, eu, enfim, sou feminista, sou militante. Então eu tenho outras coisas também. Tem momentos que eu preciso recarregar as baterias, vamos dizer assim, pra poder cuidar deles. E hoje em dia, tá tudo bem eu falar pra eles, assim “Crianças, vão pra lá um pouquinho que a mamãe tá estudando”, ou então “Vão pra lá um pouquinho que a mãe quer ficar sozinha, que a mãe quer escutar uma música, que a mãe quer o espaço dela”, assim como eles também têm o espaço deles. Então, enfim, essa questão de ser mãe, pra mim, é dessa forma que eu levo. Geralmente ele fala que as pessoas perguntam “Cadê a mãe dela?”. E aí ele fala: “Ah, a mãe dela tá, tá na faculdade, tá estudando, tá fazendo as coisas dela e tal”, porque as pessoas não são acostumadas a ver o pai levando. A gente até inclusive passa por uma coisa muito interessante.


LOCUÇÃO ALDENORA:

A Mara conta com seu parceiro de vida e pai da sua segunda filha, André Lucena, que também é cego. Enquanto ela vai para a faculdade estudar psicologia, ele fica com as crianças, leva para a escola e incentiva Mara nos estudos. O que seria uma obrigação, acaba sendo uma exceção já que a realidade de muitas mulheres é lidar com o excesso de obrigações na maternidade, que se acumulam com outras atividades que as mães realizam sozinhas em triplas jornadas de trabalho.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

Por aqui nós somos quatro. Tem o meu marido que é super parceiro, assim, a gente divide bastante o cuidado com as crianças. Eu, pra falar a verdade, vivo mais pra estudar mesmo. Questão de cuidados com a casa, assim, é mais ele.


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO JADE:

Não existe um dado preciso sobre a maternidade de mulheres com deficiência e seus enfrentamentos, mas de acordo com as vivências compartilhadas, é possível observar que o peso e o cuidado que recai sobre as mães, acaba sendo muito mais intenso quando elas possuem algum tipo de deficiência. Para a Mara, é como se muitas situações da maternidade só acontecessem por ela ser uma pessoa com deficiência.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

É desafiador para qualquer mãe, qualquer pai, sendo deficiente ou não. É claro que às vezes as pessoas vêem como “Ah, Fulaninho somente porque o pai e a mãe não enxerga, então é por isso que ele faz essas coisas”, sendo que é como se isso só acontecesse com o filho de pessoas que não enxergam. Então, principalmente quando cai, quando se machuca, quando se bate, têm esse comentário também “ah porque fulano não enxerga e tal” E, enfim, a gente está cansada de saber que criança cai mesmo que crianças pula, sobe, desce, é super normal, né?


LOCUÇÃO JADE:

A sensação, às vezes, é de que é preciso provar o tempo todo que ela é capaz de cuidar do próprio filho, até para pessoas próximas que já sabem como a Mara consegue se virar.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

Eu vou narrar alguns fatos, falar algumas coisas assim.


LOCUÇÃO JADE:

Pode falar. Estamos aqui te acompanhando


ÁUDIO MARA ANDRADE:

A minha amiga, foi para a minha casa, ficou na minha gravidez e a gente ficou por lá e eu vim com o meu baby para cá, para a capital, depois a gente voltou pra cidade pequena. E ela já estava ali confinada comigo há 3, 4 semanas por aí assim, e tava rolando uma festa na cidade e eu estava percebendo que ela estava louca para ir nessa festa, só que ela não não ia, dizia que não ia, que não sei o quê e aí eu percebi que simplesmente ela estava com medo, não sei, com receio de me deixar sozinha com o pequeno. E aí eu disse, “Olha, é o seguinte, eu estou percebendo que tu estás querendo ir para a festa, mas tá com medo de me deixar aqui sozinha com o neném e não te preocupa porque uma hora ou outra, isso vai ter que acontecer, quem teve filho, foi eu, então eu tô de resguardo e tal, não, não daria para eu ir para uma festa, mas tu não, tu tá aí sem sem filho, está podendo ir, então vai, te diverte, te solta e aí ela foi para a festa, mas mesmo assim ela me ligava de lá para saber como ele tava e tudo, eu estava ficando muito brava já com ela e tipo, não é uma pessoa que acabou de ver um cego, porque isso a gente entende, tem gente que não tem essa convivência, e realmente comete mesmo essas gafes, é normal, é super normal. Mas ela não! Ela já tinha convivido comigo, ela já tinha me visto cuidando de crianças porque eu cuidava dos meus sobrinhos quando eu morava na casa da minha irmã e tal, e ela via isso acontecendo.


LOCUÇÃO JADE:

Isso aconteceu quando o Darwin, o filho mais velho era recém nascido. Mas também teve aquela situação na época da introdução alimentar da Melanie.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

A minha filha quando ela nasceu, eu já tava desde a gravidez lendo muito sobre amamentação exclusiva até os 6 meses, sobre introdução alimentar, eu tinha uma técnica que eu queria que eu queria seguir, que é o BLW, que é quando você dá comidas em pedaços para a criança. E aí, muita gente achava que eu estava fazendo isso, porque era mais fácil do que dar na colher, porque eu ia errar a boca da criança e tudo. Então, sim, a gente consegue levar uma colher até a boca do bebê, quando a gente toca na boca do bebê com uma mão. E o bebê quando está maiorzinho, quando já têm essa noção, ele começa a levar a boca até a colher. É muito incrível.


LOCUÇÃO JADE:

A relação e a forma como vocês vão guiando isso, é adaptável, né, assim como tudo na vida.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

A gente se adapta de diversas formas.


LOCUÇÃO JADE:

Infelizmente, nem todo mundo consegue compreender e respeitar isso.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

É algo que é totalmente frustrante assim, tipo, você tá se matando assim para fazer aquilo dá certo, e aí vem uma pessoa e só porque ela acredita em outra coisa, ela não respeita o teu jeito de ser mãe. Enfim, isso é muito estressante para mim.


LOCUÇÃO JADE:

E olha que quem desconhece a tua rotina como mãe, não tem ideia do quanto que vocês são parceiros e família demais.


ÁUDIO MARA ANDRADE:

O meu marido é um parceirão, assim, me dá muita força e as minhas crianças, eu digo assim, que não é tão ruim ter pais cegos, eu acho, porque a criança acaba adquirindo outras habilidades. Por exemplo, a minha filha, acabou de fazer 4 anos e ela já tem a mania de tá descrevendo coisas pra mim, coisas que às vezes eu não quero nem saber e aí ela vai, ela descreve tudo. Eu acho bem interessante. O nosso filho também faz questão de guiar de tá ali, de ser prestativo. Às vezes eu falo assim “Filho, nem precisa você tá tão assim em cima e tudo”, mas ele quer tá, ele quer tá todo, o tempo todo, assim, ajudando e tudo.


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO ALDENORA:

Tem um outro assunto que faz com que todas as mulheres da série estejam juntas aqui no Malamanhadas: o acesso a direitos reprodutivos para as mulheres com deficiência.


LOCUÇÃO JADE:

Se considerarmos a questão de gênero e raça, o acesso a direitos reprodutivos ainda é dificultado, sendo negado o direito à sexualidade e a escolha à maternidade.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Com a intersecção das pautas de gênero, raça e deficiência, a negação desses direitos se potencializa. Segundo o Guia “Mulheres com deficiência: garantia de direitos para o exercício da cidadania”, produzido pelo Coletivo Feminista Helen Keller, um movimento de mulheres com deficiência que pauta justamente essa intersecção entre gênero e deficiência na construção de uma agenda política, vivemos em uma sociedade totalmente capacitista e machista em que as pessoas enxergam as mulheres com deficiência as vezes como pessoas que não possuem desejos sexuais, e às vezes de forma hipersexualizada.


LOCUÇÃO JADE:

Por serem vistas como pessoas que não sentem desejos, associadas de forma um tanto problemática a “pessoas assexuais”, o guia também reforça que é muito comum ver as pessoas acreditando que sabem o que é melhor para a vida sexual das mulheres com deficiência como, por exemplo, em casos em que essas mulheres são esterilizadas sem consentimento e impedidas de viverem sua vida sexual. Esses são apenas alguns dos pontos que contribuem para uma visão patologizante e estereotipada da sexualidade de pessoas com deficiência, o que alimenta o ciclo de violências contra essas mulheres.


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO ALDENORA:

Segundo a Convenção de Direitos das Pessoas com Deficiência de 2008 e a Lei Brasileira de Inclusão, que foi criada em 2015, as pessoas com deficiência devem ter atenção integral à saúde em todos os níveis de complexidade pelo Sistema Único de Saúde, o SUS. Além disso, a lei garante que as mulheres com deficiência e mobilidade reduzida devem ter os mesmos direitos sexuais e reprodutivos que as outras mulheres.


LOCUÇÃO JADE:

Mas quando se fala de garantia desses direitos, a impressão é que eles não existem. Ou melhor, só existem no papel, como bem afirma Márcia Gori.


ÁUDIO MÁRCIA GORI

Ah, existe no papel, né? Porque pelo trabalho que a gente fez lá em 2016, não é respeitado não, viu? Infelizmente não é respeitado. Se para a mulher em si já é complicado dirá para nós. É como eu te falei, existem casos de mulheres com deficiência que fizeram denúncias de médicos que quando vai consultar para fazer um pré-natal, eles deixam bem claro, categoricamente: “você não pode ter esse filho, você não tem condições de ter esse filho, entendeu?”. E já começa a colocar na cabeça dessa mulher que ela tem que fazer um aborto, que isso é a maior violência que pode ter no mundo. Se essa mulher quer ter o filho dela, ninguém tem o direito de chegar e tirar esse direito dela. Mesmo ela tendo uma deficiência intelectual. Entendeu? Tudo tem que ser muito bem entendido. Se ela for interditada, ela teria que não ter consciência cognitiva de nada, vamos dizer assim, entendimento da situação. Até aí, acredito que ainda é questionado. A gente sempre levanta uma bandeira de questionamento sobre isso. O mínimo que seja, o entendimento e ela dizer que ela quer, ela tem esse direito.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Segundo dados do relatório “Meu corpo me pertence”, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), de 2021, meninas e mulheres jovens com deficiência têm maior probabilidade de sofrer violência do que seus pares do sexo masculino com deficiência ou meninas e mulheres jovens sem deficiência. É, Márcia, como podemos ver, a luta ainda é, infelizmente, pelo mínimo.


LOCUÇÃO JADE:

Podemos também acrescentar que as mulheres com deficiência também são privadas de informações sobre métodos contraceptivos, acessibilidade em espaços públicos e atendimento de saúde, além do acesso a conteúdos sobre educação sexual que podem contribuir para evitar que muitas violências aconteçam, dentre elas, sexuais, obstétricas. Tudo isso contribui para a manutenção dos mitos e estereótipos sobre a sexualidade de mulheres com deficiência.


ÁUDIO SAYAKA FUKUSHIMA

Hoje em dia a gente tem um leque de contraceptivos, não só a camisinha masculina, tem camisinha feminina, tem o DIU, tem os anticoncepcionais injetável, o de comprimido, então a gente tem uma gama tão grande, mas que eu vejo que ainda as campanhas ainda estão falhas, não chega, infelizmente. E existe aquela coisa também das famílias, principalmente quem é mulher que tem a deficiência intelectual que existe algumas famílias querem podar totalmente a possibilidade de uma gestação, então é uma coisa a ser trabalhada nessa família.


LOCUÇÃO JADE:

Outro ponto que deve ser destacado é a inclusão de um artigo específico sobre mulheres com deficiência na Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência. Com isso, os governos reconheceram as especificidades de meninas e mulheres com deficiência das suas perspectivas de gênero e da igualdade entre as mulheres e os homens.


LOCUÇÃO ALDENORA:

Sendo assim, foi incluído um artigo no capítulo do direito à saúde da Lei Brasileira de Inclusão que reforça que as ações e serviços devem assegurar o respeito à especialidade, à identidade de gênero e à orientação sexual da pessoa com deficiência.


LOCUÇÃO JADE:

Esse diálogo já foi um ganho para a construção de políticas públicas para as pessoas com deficiência, mostrando que homens e mulheres sem deficiência e homens e mulheres com deficiência devem ter seus direitos garantidos para viver sua sexualidade e sua identidade de gênero.


ÁUDIO MARA ANDRADE

Essa questão de orientação sexual, eu fui uma pessoa que não tive, como eu sempre coloco, eu não tive muitas informações, então me via como uma pessoa hétero, comecei a ficar com meninos e tudo, tranquilamente e inclusive, nunca imaginei, assim, ficar com meninas e tal, para mim era uma coisa muito estranha, porque a gente é criado com essa visão heteronormativa e tal.

LOCUÇÃO ALDENORA:

Mas a principal força para a promoção dos direitos reprodutivos são as lutas em coletivos. Além da maternidade, outro ponto que une essas mulheres é a participação ativa em movimentos que reivindicam acessibilidade e a garantia dos direitos universais.

ÁUDIO ÂNGELA ANDRADE

A acessibilidade não é tão fácil pra nós. Eu faço parte da Associação dos Cadeirantes de Teresina. A Ascamte tem corrido muito batendo muito em cima da acessibilidade, por que realmente hoje para nós cadeirantes, não só mulheres, mas pessoas com deficiência, cadeirantes, hoje a acessibilidade não é tão fácil pra gente sair sozinha. Tem muita lugar que a gente chega que realmente não tem acessibilidade, é meio difícil, fica meio complicado. Então a Ascamte muito em cima disso aí, da acessibilidade, inclusive, muita parte do centro já foi, como é que se diz, foi batido muito em cima, tem muitas lojas que a gente chega e não tem, a acessibilidade já tá, ainda não tá 100%, mas já tá 70%


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO JADE:

Depois de conhecermos as nossas entrevistadas, a gente começou a entrar nas temáticas que vamos abordar dentro da Série Justiça Reprodutiva. Esses assuntos ainda vão render muitas discussões, viu?


LOCUÇÃO ALDENORA:

No próximo episódio, vamos falar com as nossas entrevistadas sobre direito à sexualidade, com a realização de um encontro virtual entre elas. Esperamos você, na segunda-feira, dia 13 de junho. Assine nosso feed para receber a notificação de lançamento dos próximos episódios que estão imperdíveis.


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO ALDENORA:

A Série Justiça Reprodutiva faz parte da Campanha Nem Presa, Nem Morta, que luta pela descriminalização do aborto no Brasil, sob o selo do Futuro do Cuidado - justiça reprodutiva em tempos de pandemia. É realizada pelo Malamanhadas Podcast, com Mentoria da Revista AzMina.


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO JADE: Agradecemos a consultoria para conteúdos acessíveis realizada por Denise Santos e o trabalho de tradução em libras, feito por Vitória Ribeiro. Eu sou Jade Araújo, locutora desse podcast, também responsável pela identidade sonora, montagem e edição dos áudios. A Aldenora Cavalcante é a coordenadora do projeto, locutora e roteirista.


VINHETA DA SÉRIE JUSTIÇA REPRODUTIVA


LOCUÇÃO ALDENORA: A Ananda Omati é coordenadora do projeto, roteirista, e responsável pela identidade sonora, montagem e edição dos áudios. A Jhoária Carneiro é assistente de produção. A equipe de pesquisa é composta por mim e pela Ananda. A identidade visual é do Moura Alves. Agradecemos a todas, todos e todes e até a próxima.


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FIM DO EPISÓDIO



REFERÊNCIAS UTILIZADAS NESTE EPISÓDIO:

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