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  • Equipe Malamanhadas

Dos encontros

Ontem, no bar, conheci um rapaz que estava completando 29 anos de idade, imerso em crises.

- 29 anos, cara! Tão perto dos 30 e eu não conquistei um império, não descobri um continente!

Compartilhei das crises daquele rapaz. Passados dez anos desde que pisei na universidade pela primeira vez - tão nova, cheia de sonhos e expectativas -, esta é a primeira vez que me vejo empregada (tudo bem que temporariamente, mas ainda é um emprego). Será que fiz as melhores escolhas nesta última década?

Eis que um senhor sexagenário dirige-se até nós com uma risada que preenchia todo o ambiente:

- Sabe com quantos anos Cartola gravou seu primeiro disco? 60 anos!

E, assim, conheci um dos maiores percussionistas desta cidade.

Naquela noite, o grupo de choro encerrou sua apresentação homenageando Pixinguinha. Todo o bar cantou “Carinhoso”. Tomamos a saideira acompanhados de antigos moradores do Méier que só se conheceram aqui, entre as rodas de choro e samba.

Quando o bar fechou, subimos o Morro da Forca para ficarmos mais perto das estrelas (havia tantas!). Descobri que, diferente do que imaginava, caminho rápido.

- Mas minha canela é curta. Como posso estar caminhando mais rápido que você?

- Você encara as subidas com muita determinação, moça.

Descemos o morro quando percebemos que, em poucas horas, iria amanhecer. As estrelas já não nos tocavam, escondidas pela neblina.

Às 3:40h, estávamos na Praça Tiradentes. O meu mais novo colega subiu o adro do Museu da Inconfidência, abriu os braços e exclamou:

- Minha praça! - ele que, assim como eu, é estrangeiro nessas terras, saiu do Rio de Janeiro para se encontrar em meio a essas ruas estreitas, inclinadas e escorregadias que abrem caminhos pelas montanhas de ouro.

Ficamos contemplando aqueles prédios, o silêncio, as pedras que compunham velhas passagens, o passar do tempo... Ou acaso o tempo teria congelado ali, tal como nossas mãos naquela madrugada fria?

Quando se ouvia apenas o som de nossos passos percorrendo mais uma ladeira, e de nossas palavras sussurradas naquele silêncio, como que com medo de despertar alguém, Moisés se aproximou, vindo não sei de onde.

- Venho em paz!

Mais uma vez ele tinha tido problemas em casa e perambulava pelas ruas. Problemas de bebida. Sentamos na calçada, conversamos um pouco, ele me olha e diz:

- Você é o ser mais lindo que já vi caminhar por aqui.

O boteco mais conhecido, a praça, a estação de trem, o melhor cappuccino da cidade, meu lugar de trabalho... Pensei que, minimamente, já conhecia Ouro Preto – esta cidade mágica que me escolheu. Percebi, porém, que apenas ontem comecei a, de fato, conhecer e viver esta cidade.

Um brinde aos encontros inusitados!


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