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Carta para velhos amigos poetas

Eu preciso dizer uma coisa: por aqui sempre é três da madrugada, Torquato. A cidade abandonada, as ruas que não tem mais fim, a mão fria, a mão gelada, tudo é nada, as ruas que não têm nada de mim, a saudade que me mata. Tudo, a todo momento. Eu olho para a torre dos clérigos e bate lá: tic-tac, tic-tac, três da madrugada. E no próximo minuto? Olho no relógio do velhinho na rua: tá lá: 3:00, as badaladas pulsando no mesmo horário. A neblina, o frio, a chuva. A solidão. Toda hora a mesma hora. Dentro da cidade que escolhi para mim e do meu coração que, pasme, meu caro poeta, também não vale nada.


E se for pra falar verdades a velhos amigos poetas, fique sabendo, Álvaro de Campos que por aqui também meu coração é um balde despejado. E eu conquisto todo o mundo antes de levantar da cama. E quando acordo, SIM! Ele é opaco e alheio. E quando saio de casa, ele é a terra inteira.


Agora me permita te corrigir Drummond: meu coração é sim maior que o mundo. Nele cabem minhas dores e meus amores. E é por isso que ele transborda. E é por isso que gosto tanto de me contar. Por isso me dispo, me grito, frequento jornais, me exponho. Meu coração é maior, tão quanto maiores são as ruas. E o mundo, mesmo assim continua grande. Imenso. Tal qual meu coração e as ruas das cidades.


Ando revisando muitas sensações e emoções aqui dentro. Em meses passados que agora me parecem séculos de distância, mirava las calles procurando vida, procurando a mim, na cidade que escolhi para viver. Agora, revisito tudo pela tela, pela janela. Por isso recorro aos olhos dos meus velhos amigos poetas.

Com amor, passarinha.

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