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A história que não veio

Pediram-me uma história e desde então me reviro noites adentro em silêncios rugosos em busca daquilo que deverei dizer. Inapta e aleijada.


Queria uma história de amor ou uma história de descoberta, na qual alguém, um dia, acorda e dá de cara com aquela coisa sublime, brilhante que por um milésimo passa e desaparece e se esconde de novo no encadeamento feroz dos dias – como se não houvesse transcendência alguma mais a ser aprendida ou identificada e o mundo material de aço e fibra não escondesse nada, nem mágica, nem pó de estrelas recém-caídas. Nada entre os carros, nem entre as ruas ou esquinas, nem entre as pessoas, nem entre os mundos que colidem a cada segundo sem nos darmos conta do estrondo que deve ter nos ensurdecido em tempos muitos anteriores. As coisas e as histórias esperam em silêncio e só desabrocham quando querem ser contadas. E, até agora, nenhuma se ofereceu a mim, nenhum banquete, apenas um estômago roncando, vazio. Tenho, por isso, sentido-me indigna, pouco atenta. Como um bicho medroso há dias recolhido na caverna, na escuridão, retraído, sem tocar a redoma de bolha de sabão, sempre tão frágil e luminosa que cobre tudo e adoece a carne.


Já acumulo dias sem muitas dores intensas e já acumulo dias sem conseguir ir adiante e ter convicção de que ainda respiro, meu corpo não encontra solidez, despedaçado, desencontrado, sem comunicação. Pediram-me uma história, uma história de derramamento, de lava escura que corre montanha abaixo, dando forma e criando coisas e jeitos à medida que petrifica e transforma a paisagem até a próxima erupção venha e desmanche tudo outra uma vez, outra vez, outra vez. Mas eu só tenho silêncio, aos baldes, aos litros, de toda cor e textura. Por dentro o grito abafado não me deixa escrever, tapa-me a boca, engole meus sentimentos rápidos demais, antes mesmo que eu possa investigá-los e fazer a devida autópsia. Resta, então, apenas a baba cinza que escorre continuamente e não borbulha. Uma alma morna que não acende, que não apaga, apenas caminha à meia-luz presa na teia do intransponível.


Escrever não é para os fracos e nem para os que fogem do fogo... Como eu tenho feito. Silencio a mão que se levanta, o punho que se excita, as palavras que se enfileiram e querem sair antes que ressequem, que percam a seiva bruta. E eu até que queria contar uma história, mas pareço o peixe na rede do pescador, arregalando a boca, se debatendo a beira da água. Despreparado para a mudança de mundos, para a viagem desavisada.


Preciso de uma história que fale de encantamento, que nutra alguma coisa que precisa ser urgentemente saciada em quem a lê. Uma história simples, mas cheia, redonda que diga alguma coisa de um jeito que se desenha sozinho, natural, próprio e aberto em mar bom pra pesca. Uma história que me atravesse os ossos, que encha meus pulmões e me prepare para o próximo mergulho que deve durar eras e eras. Sem garantia alguma de retorno. Nunca se retorna, de fato, das histórias que se contou. Esse é o preço a se pagar.


Mas não vem nada, ninguém toca a campainha, não há cartas na caixa do correio, não há navio trazendo novas mercadorias, não há barganha, o contato foi cortado. Eu, náufrago, nado em silêncios aquosos e as mãos, embora esticadas em braçadas longínquas, não agarram absolutamente nada. O sentido está por aí e eu corro atrás dele em sonho, levanto o tapete, recolho a sujeira, abro os armários empoeirados, releio os documentos antigos, abro o álbum de retratos, encaro-me no espelho, remexo nas heranças, rasgo as memórias e tento remenda-las a novos enredos. Mas não há nada, nenhuma relevância, nenhum protuberância, nenhuma ferida aberta e fumegante para me alimentar. Morro na praia, sem contato, sem transporte, sem asas, sem mãos e laços e sem história.




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© 2018 por Malamanhadas.

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